sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Atualização Assassinato de Ruy Ferraz Fontes, Secretário de Administração de Praia Grande


I. Resumo Executivo e Introdução: A Execução de um Símbolo Institucional

O assassinato de Ruy Ferraz Fontes, ocorrido em 15 de setembro, transcende o âmbito de um crime comum, configurando-se como um ataque coordenado contra a autoridade do Estado. Fontes possuía um perfil institucional multifacetado, atuando como ex-Delegado Geral da Polícia Civil de São Paulo e, no momento da execução, como Secretário de Administração da Prefeitura de Praia Grande. A complexidade do caso reside na convergência de duas linhas de investigação primárias: a vingança histórica orquestrada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e a represália imediata por seu trabalho de combate à corrupção dentro da gestão municipal.  

A investigação policial, conduzida por equipes de elite como o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) e o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), confirmou categoricamente o envolvimento do PCC na execução. Até o momento, oito indivíduos foram identificados, quatro presos e quatro permanecem foragidos, destacando-se entre eles Felipe Avelino da Silva, conhecido como "Masquerano," figura notória da facção criminosa. O caso Ruy Ferraz Fontes se estabeleceu como um marco na segurança pública brasileira, expondo a urgente necessidade de ferramentas legais mais robustas para proteger as autoridades que confrontam o crime organizado transnacional.

 

1.1. O Perfil Multifacetado de Ruy Ferraz Fontes

Ruy Ferraz Fontes era amplamente reconhecido por sua longa e distinta carreira na Polícia Civil, culminando no cargo de Delegado Geral. Seu legado mais significativo foi o enfrentamento direto ao crime organizado, notadamente o PCC, cuja cúpula ele foi responsável por indiciar em 2006. Essa atuação prévia o colocava em uma posição de alto risco permanente, sendo um alvo prioritário para retaliação por parte da facção criminosa.  

Ao ingressar na política municipal como Secretário de Administração de Praia Grande, Fontes assumiu uma nova função estratégica que, conforme apurado, envolvia a realização de um "pente fino" ou auditoria rigorosa em contratações e procedimentos administrativos sob suspeita de irregularidades. Este trabalho na administração pública municipal introduziu uma nova camada de risco, potencialmente confrontando interesses financeiros ilícitos diretamente ligados à máquina pública.  

O trágico desfecho do Secretário, após uma vida dedicada a combater o crime organizado, revela uma fragilidade sistêmica crucial no aparato estatal: a vulnerabilidade de autoridades que, após se aposentarem ou mudarem de cargo, perdem a proteção institucional ostensiva de que desfrutavam. Essa descontinuidade de segurança expõe indivíduos de alto risco à retaliação, atuando como um "antiestímulo" para que outros membros da segurança pública ou do Ministério Público se dediquem integralmente ao enfrentamento de facções com alcance nacional e internacional. A transição de Fontes para um cargo administrativo, que não exigia o mesmo nível de segurança policial constante, criou a oportunidade tática perfeita para os executores da facção.  

1.2. O Choque Institucional do Assassinato e o Escopo da Investigação

O assassinato ocorreu em uma emboscada em 15 de setembro, chocando as esferas policial e política de São Paulo. A investigação subsequente precisou lidar imediatamente com a complexa hipótese de motivação dual. A Secretária de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, através do Secretário Guilherme Derrite, indicou que a execução poderia ser uma represália ao histórico de Fontes no combate ao PCC (Linha 1) ou uma consequência direta de sua função atual como Secretário de Administração de Praia Grande (Linha 2).  

O Departamento de Homicídios (DHPP) não descartou a possibilidade de que a execução tenha sido o resultado de uma combinação estratégica das duas motivações. O foco inicial do inquérito tem sido a identificação e captura dos executores e do aparato logístico, concomitante à busca por mandantes, tanto no âmbito do crime organizado puro quanto no da corrupção municipal.  

II. A Dinâmica da Ação Criminosa e a Logística de Apoio

A execução de Ruy Ferraz Fontes não se deu por um ato isolado de violência, mas por uma operação de alto nível, caracterizada por planejamento meticuloso, uso de múltiplas bases operacionais e armamento de calibre profissional.

2.1. Cronologia do Crime e o Modus Operandi da Emboscada

Fontes foi fatalmente atingido a tiros na noite de 15 de setembro, em Praia Grande, em um ataque que se enquadra na definição de emboscada. O planejamento revelou-se profissional, envolvendo uma equipe de perseguição e a utilização de diversos recursos para garantir o sucesso da execução e a subsequente evasão dos criminosos.  

A sofisticação logística exigida para monitorar, emboscar e desaparecer após assassinar uma figura pública de alto perfil só pode ser atribuída a organizações criminosas com treinamento e capacidade financeira para sustentar longas preparações. Um dos veículos envolvidos na dinâmica do crime foi posteriormente localizado e apreendido, contendo munições e carregadores de fuzis. O emprego de armamento de alto calibre reafirma o caráter de execução planejada, distanciando o crime de qualquer hipótese de latrocínio ou crime passional de baixa escala.  

2.2. As Bases Operacionais e a Descoberta de Evidências

Durante as investigações, a polícia identificou e apreendeu duas casas usadas como bases logísticas pelos criminosos: uma localizada em Praia Grande, a menos de 10 km do local da execução, e outra em Mongaguá, a 27 km de distância. Essas bases foram cruciais para o rastreamento dos suspeitos.  

A análise pericial das casas e dos veículos de apoio forneceu evidências biológicas e papiloscópicas cruciais. Impressões digitais e DNA foram encontrados, resultando na identificação de foragidos chave, incluindo Flávio Henrique Ferreira de Souza e Umberto Alberto Gomes, este último identificado pelas digitais na casa de Mongaguá.  

Um elemento particularmente notável na fase de investigação foi a descoberta de frases pichadas nas fachadas dos imóveis de apoio, como: "A justiça tarda mas não falha" e "que a verdade seja dita". Analistas de segurança interpretam este ato como uma Tática de Intimidação ou uma Operação Psicológica Criminosa (  

PSYOPS).

Organizações criminosas de alta performance geralmente evitam deixar rastros desnecessários em suas bases operacionais. A pichação representa uma quebra deliberada do modus operandi de segurança, sugerindo um objetivo estratégico secundário: controlar a narrativa pública. Ao invocar a "justiça," os criminosos buscaram, de forma cínica, legitimar o assassinato perante a sociedade, insinuando que a vítima era, ou estava ligada a, uma estrutura corrupta ou injusta. Essa mensagem reforça de maneira indireta a linha de investigação que liga a execução ao conflito administrativo e ao trabalho de "pente fino" de Fontes na prefeitura.  

III. A Ligação Incontestável com o Crime Organizado (PCC)

A principal confirmação da natureza do ataque é a ligação direta e incontestável com o Primeiro Comando da Capital (PCC), elemento que eleva o caso a uma questão de segurança nacional.

3.1. Confirmação Institucional do Envolvimento

O Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, foi enfático ao afirmar publicamente que "não resta dúvida do envolvimento do PCC". A evidência que sela essa conclusão é a participação de Felipe Avelino da Silva, conhecido como "Masquerano".  

Masquerano é um indivíduo de alta periculosidade dentro da hierarquia do PCC, com histórico de planejamento de ataques contra autoridades. Em 2019, enquanto estava detido na penitenciária de Irapuru, ele planejou ataques direcionados à diretoria e chefia de plantão da unidade. Bilhetes detalhando a execução, assinados por 16 integrantes da facção, foram apreendidos na época. A presença de Masquerano na logística da execução de Fontes (com DNA encontrado em um dos carros usados) demonstra que a ordem partiu do alto escalão da facção, validando a execução como um ato de terrorismo institucional e não como um crime oportunista.  

3.2. A Estrutura de Elite do PCC em Ataques a Autoridades

A execução de Ruy Ferraz Fontes deve ser analisada no contexto de uma escalada na ameaça institucional que o PCC representa. Relatos de inteligência indicam que a facção estaria treinando grupos de elite especificamente designados para atacar autoridades em São Paulo.  

Esta estratégia ultrapassa a vingança pessoal. O assassinato de um ex-Delegado Geral de Polícia Civil, a quem se atribui a desarticulação da cúpula da facção em 2006, é uma demonstração de força e alcance. O objetivo é enviar uma mensagem de terror ao Estado: nem mesmo seus combatentes mais graduados estão seguros, independentemente de estarem na ativa ou em novos cargos administrativos. Este ato serve para minar a moral das forças de segurança e reforçar o poder de intimidação da facção.

3.3. O Legado de Ruy Ferraz Fontes no Combate à Facção

Historicamente, a motivação mais óbvia é o papel de Ruy Fontes como um dos principais antagonistas do PCC. Ele foi o responsável por indiciar toda a cúpula da organização em 2006, um golpe significativo na estrutura da facção.  

A esposa de Fontes, Cátia, embora não tenha respondido diretamente sobre quem atribuía a morte do marido, o descreveu como uma pessoa honesta e de caráter, reforçando o legado dele como um "símbolo de resistência contra o crime organizado". Esse legado, ironicamente, tornou-o um alvo permanente, cuja eliminação representaria uma vitória simbólica de extrema importância para a facção.  

IV. O Status Judicial dos Investigados e os Desdobramentos da Perseguição

A investigação resultou na identificação de oito suspeitos de participação direta no planejamento e execução do assassinato, levando à decretação de prisões temporárias pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). O acompanhamento do caso está registrado no número de processo 154.00010185/2025-91.  

4.1. Total de Suspeitos Identificados e Situação Processual

O aparato investigativo conseguiu identificar todos os oito indivíduos suspeitos de envolvimento direto. O Tribunal de Justiça de São Paulo já conferiu o pedido de prisão para todos eles.  

Até o momento, a situação processual se divide entre presos e foragidos. Quatro suspeitos foram detidos. Outros quatro permanecem foragidos, sendo ativamente procurados pela Polícia Civil.  

4.2. Detalhamento dos Principais Envolvidos e Foragidos

Entre os detidos, destaca-se Rafael Marcel Dias Simões, conhecido pelo apelido "Jaguar," apontado pelas autoridades como um dos possíveis autores dos disparos contra Ruy Ferraz Fontes.  

Um desdobramento crucial na investigação envolveu a Força-Tarefa Interfederativa. Um indivíduo identificado como o atirador principal havia fugido para o estado do Paraná. Em uma operação coordenada entre o Grupo Tigre do Paraná e o DEIC/DECAP de São Paulo, o foragido foi localizado. Segundo informações das autoridades, este criminoso ofereceu resistência à prisão e foi "neutralizado" (morto) em confronto com os policiais. A colaboração interestadual para localizar e neutralizar um alvo de alta periculosidade demonstra um nível de resposta coordenada que é essencial no combate ao crime organizado, cuja mobilidade não respeita fronteiras estaduais.  

Os quatro suspeitos que permanecem foragidos são considerados de altíssimo risco e incluem os principais elos operacionais do PCC na execução:

  1. Felipe Avelino da Silva ("Masquerano"): 33 anos. Membro de alta relevância do PCC, cujo DNA foi encontrado em um dos carros utilizados no crime.  

  2. Flávio Henrique Ferreira de Souza: 24 anos. Identificado por impressões digitais e DNA em locais de apoio.  

  3. Luiz Antonio Rodrigues de Miranda: 43 anos. Suspeito de ter ordenado o transporte das armas utilizadas na ação.  

  4. Umberto Alberto Gomes: 39 anos. Suas impressões digitais foram encontradas na casa de apoio utilizada em Mongaguá.  

A captura dos foragidos, especialmente Masquerano, é crucial para que a polícia possa desvendar completamente a cadeia de comando da execução.

Tabela 1: Situação Processual dos Principais Suspeitos Identificados

Suspeito (Nome/Apelido)Papel Alegado/Evidência ChaveStatus AtualDetalhe da Ligação
Rafael Marcel Dias Simões (Jaguar)Apontado como possível atirador/autor dos disparosPreso

Identificação Policial

Atirador (Nome não divulgado na fonte)Fugitivo localizado no Paraná; envolvido na execuçãoMorto/Neutralizado

Força-Tarefa DEIC/DECAP/Grupo Tigre

Felipe Avelino da Silva (Masquerano)Membro do PCC, DNA encontrado em veículo do crimeForagido

Alto escalão da facção; histórico de planejamento de ataques

Flávio Henrique Ferreira de SouzaImpressões digitais e DNA no local de apoioForagido

Apoio logístico

Umberto Alberto GomesDigitais encontradas em casa de apoio (Mongaguá)Foragido

Base de suporte

Luiz Antonio Rodrigues de MirandaSuspeito de ordenar o transporte de armasForagido

Apoio operacional

 

V. Análise Criminológica da Motivação: O Eixo Dual

A investigação trabalha rigorosamente na intersecção das duas linhas de motivação, que, embora distintas, podem ter convergido para resultar na execução. A Secretaria de Segurança Pública não descartou que o crime seja o resultado de uma "combinação" das duas hipóteses.  

5.1. A Tese da Vingança Histórica do PCC (Linha 1)

Esta linha se baseia no histórico de Ruy Ferraz Fontes como Delegado Geral e seu papel fundamental em 2006 ao indiciar a cúpula do PCC. Para uma organização criminosa que funciona como uma máfia transnacional, a eliminação de figuras que infligiram danos severos à sua estrutura é uma questão de política interna e terrorismo.  

A vingança, neste contexto, não é um mero ato de retaliação emocional, mas um cálculo frio destinado a reestabelecer o medo e a soberania do crime organizado sobre o sistema penal e de segurança. A mobilização de um operador de alto valor como Masquerano sugere que a ordem para a execução era estratégica e prioritária para a facção.  

5.2. A Tese da Represália Administrativa e o Conflito Municipal (Linha 2)

A segunda linha de investigação aponta para a atuação de Ruy Fontes como Secretário de Administração em Praia Grande. Seu trabalho de "pente fino" em contratações sob suspeita evidentemente atingiu interesses financeiros poderosos, provavelmente ligados a esquemas de corrupção que podem envolver agentes públicos ou empresários alinhados ao crime organizado.  

Essa motivação administrativa sugere que Fontes se tornou uma ameaça financeira e operacional imediata. Sua eliminação seria, portanto, uma medida para proteger fluxos de dinheiro ilícito e manter o controle sobre a máquina pública municipal. A mensagem implícita na pichação deixada pelos executores ("que a verdade seja dita") apoia essa tese, sugerindo que o crime estava ligado a uma percepção de injustiça ou corrupção no âmbito administrativo que Fontes estaria confrontando.  

5.3. Intersecção dos Motivos: Crime de Mando Híbrido

A análise mais robusta sugere a existência de um Crime de Mando Híbrido. É altamente plausível que a execução tenha sido ordenada e financiada por elementos da corrupção municipal (pessoas afetadas diretamente pelo "pente fino" de Fontes) que, necessitando de uma capacidade de execução letal e profissional, contrataram ou mobilizaram o aparato de elite do PCC.

Neste cenário de Sinergia Operacional e Terceirização da Corrupção, a motivação histórica (a vingança do PCC) forneceu o pretexto e os executores de alto calibre (como Masquerano), enquanto a motivação administrativa serviu como o gatilho imediato e o financiamento. O crime organizado, atuando como um "braço armado" para interesses internos do poder público, reforça o quão profundamente essas facções estão inseridas no tecido institucional e financeiro do estado, usando a violência extrema para eliminar obstáculos a seus lucros ilícitos.

Tabela 2: Hipóteses de Motivação da Execução (Análise Dual)

Linha de InvestigaçãoNatureza do ConflitoEvidências de SuporteImplicação Estratégica
Vingança Histórica (PCC)Profissional/Terrorismo Institucional

Ruy indiciou cúpula do PCC em 2006; envolvimento de Masquerano

Mensagem clara ao Estado sobre o poder de retaliação da facção e impunidade.
Represália AdministrativaFuncional/Corrupção Municipal

Ruy realizava "pente fino" em contratos; subsecretário foi alvo de buscas

Eliminação de ameaça imediata a fluxos financeiros ilícitos na administração municipal.
 

VI. O Inquérito Sobre o Subsecretário Sandro Rogério Pardini

A busca por uma ligação entre o aparato criminoso e a administração pública municipal focou diretamente no Subsecretário de Gestão e Tecnologia de Praia Grande, Sandro Rogério Pardini.

6.1. O Alvo de Busca e Apreensão

Sandro Rogério Pardini, que atuava como subsecretário na pasta de Fontes, foi alvo de mandados de busca e apreensão cumpridos pela polícia. A ação visava determinar se havia envolvimento de agentes públicos na logística ou no mandante do assassinato, conectando formalmente a Linha 2 (Represália Administrativa) ao inquérito de homicídio.  

A premissa da investigação é que, se o assassinato foi motivado pelo trabalho de Fontes contra a corrupção, era necessário investigar figuras que pudessem ter sido ameaçadas por essa auditoria interna ou que possuíssem ligações com o crime organizado ou com esquemas ilícitos.

6.2. Detalhes da Apreensão e Implicações Financeiras

O cumprimento do mandado na residência de Pardini resultou em apreensões que adicionaram peso à tese de atividades financeiras irregulares. A polícia apreendeu um volume significativo de ativos: três pistolas, R$50.000 em espécie, além de 10.000€ (euros) e $10.000 (dólares).  

A apreensão de grandes somas em múltiplas moedas e armamento reforça de maneira substancial a suspeita de Enriquecimento Ilícito e/ou Logística Clandestina, indicando que o Subsecretário poderia estar envolvido em atividades financeiras que fugiam à normalidade do serviço público. Embora a posse de armas e dinheiro em espécie por si só não provem envolvimento no assassinato, o material apreendido se alinha perfeitamente com a tese de que Fontes estava confrontando esquemas ilícitos na prefeitura. O dinheiro, especialmente nas moedas estrangeiras, sugere movimentação de capital ou patrimônio que pode ter conexões internacionais ou que buscava ocultação, elementos frequentemente associados a crimes de colarinho branco e corrupção estrutural.

6.3. A Posição da Defesa

Em nota, a defesa de Sandro Rogério Pardini declarou que o subsecretário nega "veementemente toda e qualquer participação, seja ela direta ou indireta, nos fatos que são apurados". Ele se colocou à disposição das autoridades para colaborar com as investigações, inclusive fornecendo as senhas necessárias para a continuidade da análise de seus dispositivos eletrônicos apreendidos, como celulares.  

A fase de análise dos elementos colhidos na busca e apreensão, incluindo os dados dos celulares e a origem do capital apreendido, é agora uma etapa crítica para determinar o grau de envolvimento (se houver) de Pardini no esquema de corrupção que Fontes estava combatendo, e se essa corrupção se ligou, de alguma forma, à ordem de execução.  

Tabela 3: Materiais Apreendidos na Residência do Subsecretário (Sandro R. Pardini)

Item ApreendidoQuantidadeSignificado no Contexto da Investigação
Reais (em espécie)R$ 50.000

Valores que podem indicar movimentação financeira não rastreável

Euros (em espécie)10.000€

Indício de transações ou patrimônio com alcance internacional

Dólares (em espécie)$ 10.000

Indício de transações ou patrimônio com alcance internacional

Pistolas3 unidades

Armamento de uso restrito ou segurança pessoal acima do padrão

CelularesDados e Senhas fornecidas

Ferramenta de comunicação crucial para rastrear o envolvimento ou ligações

 

VII. Consequências Institucionais e o Debate sobre Segurança Pública

A execução de Fontes não é apenas um caso de polícia, mas um evento que impõe reflexões profundas sobre a segurança de figuras públicas no Brasil e a capacidade do Estado de enfrentar a ameaça transnacional do crime organizado.

7.1. O Impacto na Administração Municipal de Praia Grande

O assassinato de Ruy Ferraz Fontes causou um impacto imediato na Secretaria de Administração de Praia Grande. Inicialmente, houve uma fase de transição e luto, com o site oficial da prefeitura referindo que a secretaria seguiria sob o comando de Fontes. Contudo, a necessidade de garantir a continuidade administrativa levou à nomeação de um novo secretário para a pasta.  

A morte de Fontes em serviço de combate à corrupção interna envia um sinal de alto risco a futuros administradores que pretendam realizar auditorias rigorosas, potencialmente gerando um efeito inibidor (chilling effect) na capacidade do município de combater esquemas ilícitos que se entranham na estrutura administrativa.

7.2. O Clamor pela Lei Antimáfia e a Proteção de Autoridades

O caso Fontes reacendeu o debate nacional sobre a urgência de fortalecer o aparato legal contra o crime organizado. Promotores e especialistas destacaram a importância da adoção de uma Lei Antimáfia eficaz no Brasil.  

A premissa é clara: organizações criminosas como o PCC operam como "multinacionais" do crime e não podem ser combatidas apenas com instrumentos jurídicos tradicionais. A ausência de garantias de segurança vitalícia para autoridades que enfrentam diretamente essas facções, especialmente após a aposentadoria ou transição para cargos de menor segurança ostensiva, compromete a soberania do Estado. Se o Estado não consegue proteger aqueles que o defenderam, ele está gerando um poderoso "antiestímulo" para que futuros policiais e promotores evitem o confronto direto com o crime organizado, colocando em risco a segurança pública a longo prazo.  

7.3. O Debate sobre o Combate ao Crime Organizado e o Narcoestado

Em uma perspectiva mais ampla, o assassinato gerou um apelo urgente para que o Congresso Nacional se concentre em medidas que permitam à polícia e ao Ministério Público um combate mais eficaz e focado no financeiro das facções.

Especialistas jurídicos demandaram uma reforma constitucional que crie o chamado "Direito Penal de Terceira Velocidade". Este conceito prioriza instrumentos focados em atacar a base financeira do crime, como o bloqueio de bens, o sequestro cautelar de imóveis, móveis e patrimônio. A argumentação é que, sem perseguir o dinheiro com instrumentos adequados, é impossível combater eficazmente o crime organizado.  

A inação legislativa neste campo é vista como um fator que empurra o país para um "caminho irreversível" de se tornar um narcoestado , onde a economia e a política são crescentemente influenciadas ou controladas por organizações criminosas. O caso Ruy Ferraz Fontes serve como um alerta máximo sobre a necessidade de focar o aparato estatal na desarticulação econômica das facções, além da prisão de seus membros.  

VIII. Conclusão e Projeções Judiciais

O assassinato de Ruy Ferraz Fontes é um evento de alta complexidade que exigiu uma resposta rápida e coordenada das forças de segurança, confirmando a atuação de elementos de elite do PCC com logística profissional e motivação dupla.

8.1. Síntese dos Fatos Confirmados e das Próximas Etapas Processuais

A investigação confirmou que a execução foi realizada por executores ligados ao PCC, mobilizados por figuras como Masquerano. A Polícia Civil conseguiu mapear a logística, identificar oito suspeitos e neutralizar um dos atiradores principais.  

A grande incógnita que domina a fase atual é a definição precisa da cadeia de comando: se a ordem foi puramente estratégica (vingança histórica do PCC) ou se envolveu um mandante do âmbito municipal (ligado à corrupção) que utilizou o aparato do PCC para eliminar um obstáculo.  

As próximas etapas processuais dependem da captura dos quatro foragidos de alto risco, especialmente Masquerano. A análise dos dispositivos eletrônicos apreendidos e a rastreabilidade do grande volume de dinheiro encontrado na posse do Subsecretário Sandro Rogério Pardini serão elementos cruciais para ligar a execução ao contexto administrativo de Praia Grande.  

8.2. Implicações Estratégicas e o Futuro do Caso

A resolução do caso Fontes se tornou um teste de resiliência para o Estado de São Paulo. Se as autoridades conseguirem capturar os foragidos e desvendar a totalidade dos mandantes — seja no PCC, na esfera política corrupta, ou na intersecção de ambos — isso representará um avanço significativo no combate à infiltração criminosa no poder público.

Contudo, se a investigação não conseguir mapear totalmente a cadeia de financiamento e mando (Linha 2), restará a percepção de que a corrupção dentro da máquina pública pode impulsionar execuções de alto nível, utilizando o crime organizado como instrumento terceirizado, um cenário que tem implicações desastrosas para a governança e a segurança institucional.

8.3. Recomendações de Acompanhamento para Stakeholders

Para analistas de segurança pública, consultores jurídicos e membros do governo, recomenda-se o acompanhamento rigoroso de três eixos fundamentais:

  1. Monitoramento Judicial: Acompanhamento constante da tramitação do processo judicial 154.00010185/2025-91 no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP).  

  2. Captura de Foragidos: Monitoramento dos esforços das Forças-Tarefas para localizar Felipe Avelino da Silva ("Masquerano") e os demais foragidos.  

  3. Avanços Legislativos: Acompanhamento das discussões e propostas no Congresso Nacional relativas à implementação de uma Lei Antimáfia abrangente e de reformas que permitam o sequestro e o bloqueio mais eficazes dos ativos do crime organizado, reconhecendo o caso Ruy Ferraz Fontes como um catalisador para a urgência do "Direito Penal de Terceira Velocidade". A proteção permanente de autoridades que enfrentam grandes facções deve ser institucionalizada como uma prioridade de segurança nacional.  





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