domingo, 9 de novembro de 2025

COP30 e sua importância para o Brasil, Governador Tarcisio e a Praia Grande de Neymar


Introdução

O clima entrou definitivamente no centro da política. Com a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP30), marcada para ocorrer em Belém a partir de 10 de novembro de 2025, parlamentares do PSOL decidiram levar ao evento internacional um dossiê contundente. O documento denuncia o que chamam de “negligências climáticas” cometidas pelo governo de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos). O objetivo é dar visibilidade global a um problema que, apesar de local, representa bem os desafios estruturais enfrentados por governos regionais em todo o Brasil na luta contra a crise climática.

Esse relatório, elaborado com o apoio de 30 organizações sociais, foi articulado pelo deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL), com forte participação de mandatos parlamentares da legenda, movimentos sociais, e especialistas em meio ambiente. O conteúdo mostra um cenário preocupante: políticas ambientais sendo sistematicamente desmontadas, omissões graves frente à emergência climática, privatizações agressivas e uma lógica de gestão que prioriza o interesse privado em detrimento da coletividade.

Contexto da COP30 e sua importância para o Brasil

A COP30 representa mais do que uma simples conferência anual da ONU. Realizada em solo brasileiro pela primeira vez na Região Norte, em Belém do Pará, ela simboliza o protagonismo do Brasil nas discussões globais sobre mudanças climáticas. A Amazônia, por sua biodiversidade e função crítica no equilíbrio climático global, coloca o país no centro do debate. A escolha de Belém como sede tem também forte peso político e simbólico: ela amplia o foco para regiões historicamente esquecidas nas decisões ambientais, como o Norte e o Nordeste, onde os impactos das mudanças climáticas são sentidos de maneira mais severa.

Nesse cenário, o Brasil é pressionado a demonstrar avanços reais no combate ao desmatamento, na transição energética e na construção de políticas públicas sustentáveis. Além disso, há expectativa internacional de que o país consiga articular ações concretas com estados e municípios. É justamente aí que a crítica ao governo de São Paulo ganha peso: um estado economicamente poderoso, com forte infraestrutura e capacidade técnica, mas que, segundo o dossiê do PSOL, tem se omitido sistematicamente diante da emergência climática.

A COP30 será uma vitrine global para boas e más práticas. E é nesse espaço que o PSOL pretende apresentar o relatório, não apenas como denúncia, mas como alerta: se até São Paulo, com todo seu potencial, falha em políticas ambientais, o que dizer de estados com menos estrutura? A crítica ganha contornos mais amplos — e reforça a tese de que mudanças estruturais são urgentes e inadiáveis.


A presença do PSOL na COP30

A participação do PSOL na COP30 não será protocolar. A legenda prepara uma comitiva robusta, com deputados estaduais como Guilherme Cortez, a Bancada Feminista da Alesp, vereadores de diversas cidades do interior paulista e representantes de movimentos sociais com atuação direta nas periferias urbanas, comunidades tradicionais e áreas ambientalmente sensíveis.

O partido, que tem historicamente atuado em pautas socioambientais, pretende utilizar o espaço internacional para cobrar compromissos efetivos não só do governo federal, mas também de administrações estaduais que, segundo seus parlamentares, vêm adotando posturas negligentes frente à crise climática. A entrega do dossiê à ONU é parte de uma estratégia maior: internacionalizar a crítica ao modelo de gestão ambiental de Tarcísio de Freitas.

A presença do PSOL busca, ainda, conectar lutas locais com o debate climático global. Os parlamentares pretendem demonstrar que o desmonte de políticas ambientais em São Paulo tem reflexos diretos na vida de milhões de pessoas — principalmente das populações periféricas, que são as primeiras a sentir os efeitos de enchentes, ondas de calor extremo, falta d’água e deslizamentos causados por ocupações desordenadas em áreas de risco.

Essa ação marca também o esforço de parlamentares progressistas em ocupar espaços de decisão e debate que historicamente foram dominados por representantes de grandes corporações ou governos conservadores. É uma tentativa clara de pautar o clima como questão de justiça social, não apenas como um problema técnico ou distante.


Objetivo do dossiê apresentado

O dossiê construído por Guilherme Cortez e sua equipe tem um propósito claro: expor, com dados, fatos e análises técnicas, o descompromisso do governo de São Paulo com a pauta ambiental. O documento busca ir além da retórica e apresenta uma série de evidências que indicam uma política deliberada de omissão, desfinanciamento e enfraquecimento das estruturas de proteção ambiental.

Entre os objetivos centrais do relatório estão:

  • Denunciar a falta de investimentos em políticas de adaptação climática.

  • Evidenciar o desmatamento e a urbanização predatória sem planejamento.

  • Alertar para os impactos sociais da privatização de serviços essenciais, como a Sabesp.

  • Mostrar como a lógica desenvolvimentista atual favorece setores privados em detrimento de comunidades vulneráveis.

  • Pressionar o governo federal e organismos internacionais a cobrarem responsabilidades do governo paulista.

Outro ponto importante do dossiê é a tentativa de criar um precedente: mostrar que é possível, e necessário, responsabilizar politicamente administrações estaduais e municipais por suas decisões ambientais. Não basta mais esperar pela ação federal — cada ente federativo precisa assumir seu papel na mitigação das mudanças climáticas.

O perfil do governador Tarcísio de Freitas e sua política ambiental

Tarcísio de Freitas, ex-ministro da Infraestrutura do governo Bolsonaro e atual governador de São Paulo, carrega um perfil técnico, centralizador e alinhado a uma visão liberal de desenvolvimento. Sua gestão no estado vem sendo marcada por grandes projetos de infraestrutura, privatizações e uma ênfase em atrair investimentos privados, especialmente em setores como transportes, energia e saneamento. No entanto, essa abordagem tem levantado críticas por negligenciar a sustentabilidade ambiental e os impactos sociais de suas decisões.

No campo climático, a gestão Tarcísio é acusada de adotar uma política de “terra arrasada”. A crítica central é que o governador enxerga o meio ambiente como obstáculo burocrático e não como uma prioridade estratégica. Ao priorizar concessões, parcerias público-privadas e corte de gastos com políticas públicas, o governo tem desmontado estruturas fundamentais de fiscalização ambiental e deixado de lado programas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Essa visão é refletida em ações como a desestruturação de órgãos ambientais, o apoio a projetos poluentes e a venda de áreas públicas para o setor privado sem critérios ambientais claros. O dossiê aponta que a gestão de Tarcísio reproduz uma lógica antiquada de desenvolvimento, centrada em obras e crescimento econômico a qualquer custo, ignorando os limites ambientais do território paulista.

Além disso, Tarcísio tem adotado um discurso ambíguo em relação ao meio ambiente: por um lado, fala em modernização e eficiência; por outro, não apresenta planos concretos para enfrentar a emergência climática. A ausência de compromissos claros, metas específicas ou programas estaduais voltados para transição energética, reflorestamento ou mobilidade sustentável revela um descompasso com as exigências do momento.


Críticas centrais: omissão e desmonte das políticas climáticas

O dossiê do PSOL traça um panorama devastador sobre a condução da política ambiental no estado. A principal crítica é a omissão do governo Tarcísio diante de um cenário climático alarmante. Segundo o documento, essa omissão se manifesta em três frentes principais: a falta de planejamento, o desmonte de estruturas institucionais e a priorização de interesses privados sobre a coletividade.

A omissão mais evidente está na ausência de políticas públicas específicas para enfrentar os eventos climáticos extremos que têm se tornado recorrentes em São Paulo. Ondas de calor, enchentes, deslizamentos e longos períodos de estiagem já causam prejuízos econômicos e perdas humanas. Ainda assim, o estado não possui um plano integrado de ação climática, nem mecanismos efetivos para proteger populações vulneráveis.

O desmonte institucional se evidencia na redução de orçamento para órgãos ambientais, na precarização de agências reguladoras e no esvaziamento de conselhos de participação social. A Secretaria de Meio Ambiente, por exemplo, perdeu autonomia e capacidade operacional nos últimos anos, dificultando ações de fiscalização e licenciamento ambiental.

Por fim, o dossiê aponta que a atual gestão tem favorecido empreendimentos de alto impacto ambiental sem a devida análise técnica ou transparência. Projetos de infraestrutura pesada são aprovados com rapidez, enquanto medidas de mitigação e compensação ambiental são ignoradas. Isso aprofunda o desequilíbrio ecológico e aumenta a vulnerabilidade do estado aos efeitos da crise climática.


A ausência de termos ambientais na LDO de 2025

Um dos pontos mais simbólicos da crítica feita pelo PSOL é a ausência de qualquer menção à crise climática na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2025. Segundo o deputado Guilherme Cortez, não há uma única referência a termos como “clima”, “emergência”, “desastre” ou “adaptação”. Isso, em um estado que já enfrenta efeitos claros das mudanças climáticas, como aumento da temperatura média e eventos extremos mais frequentes.

A ausência desses termos revela não apenas negligência, mas uma postura ideológica que nega a gravidade do problema climático. A LDO é o principal instrumento de planejamento das ações do governo — se a emergência ambiental não aparece nela, é sinal de que não há sequer intenção de enfrentá-la.

Além disso, essa omissão tem consequências práticas graves. Sem orçamento direcionado, não há como implementar políticas de adaptação urbana, reflorestamento, recuperação de nascentes ou transição energética. O estado segue operando de forma reativa, apenas lidando com os efeitos dos desastres naturais quando eles já causaram prejuízos irreversíveis.

Essa postura contrasta com outros estados e municípios que, mesmo com orçamentos menores, vêm desenvolvendo planos climáticos locais, criando fundos específicos para enfrentar a crise ambiental e promovendo articulações com a sociedade civil. Em São Paulo, segundo o dossiê, a gestão estadual escolheu virar as costas para o desafio mais urgente do século.


Impactos da urbanização desordenada em São Paulo

A metrópole de São Paulo e sua região metropolitana são exemplos claros de como a urbanização desenfreada, sem planejamento ambiental, contribui diretamente para a intensificação da crise climática. A cidade já enfrenta ilhas de calor, enchentes cada vez mais graves e aumento de doenças relacionadas ao clima, como dengue e infecções respiratórias agravadas por ondas de calor e poluição.

O dossiê destaca que a expansão urbana tem invadido áreas de proteção ambiental, encostas, margens de rios e regiões de mananciais. A impermeabilização do solo e a destruição de vegetação nativa comprometem a capacidade de absorção da água da chuva, agravando enchentes e deslizamentos. Tudo isso impacta principalmente as populações mais pobres, que vivem em áreas de risco e sem infraestrutura adequada.

Outro fator crítico é a falta de integração entre os planos diretores municipais e uma política estadual de ordenamento territorial. Isso gera um efeito dominó: cada município cresce sem considerar os impactos regionais, e o governo do estado se omite em liderar uma articulação sustentável. O resultado é um crescimento caótico, que sobrecarrega os sistemas de transporte, saneamento e habitação — e piora as condições climáticas em toda a região.

Além disso, a lógica de verticalização acelerada e de grandes empreendimentos imobiliários nos centros urbanos tem substituído áreas verdes por concreto, o que agrava o fenômeno das ilhas de calor. Segundo o dossiê, essas decisões são tomadas com base em interesses do mercado imobiliário, com pouca ou nenhuma participação da população ou avaliação ambiental criteriosa.

Desmatamento de corredores ecológicos e áreas verdes

A destruição de corredores ecológicos é uma das denúncias centrais do dossiê apresentado à COP30. Esses corredores são áreas de vegetação que conectam fragmentos de mata nativa e permitem o fluxo de espécies, a manutenção da biodiversidade e o equilíbrio climático local. Em São Paulo, muitos desses espaços estão sendo engolidos por obras de infraestrutura, loteamentos irregulares e expansão urbana predatória.

Na prática, o que ocorre é a substituição de áreas com vegetação por superfícies impermeáveis, como asfalto, concreto e edificações. Essa transformação altera o microclima local, aumenta a temperatura média das cidades e diminui a capacidade de absorção da água da chuva, agravando enchentes e secas urbanas. Além disso, a fauna local perde seu habitat, o que acelera o processo de extinção de espécies e rompe o equilíbrio ecológico.

O dossiê aponta que o governo estadual não só falha em proteger esses espaços, como também incentiva sua destruição ao flexibilizar licenças ambientais e ao permitir a especulação imobiliária em áreas ambientalmente frágeis. Um exemplo citado é a autorização de empreendimentos imobiliários em regiões de mananciais e matas urbanas da Grande São Paulo, onde a vegetação deveria ser protegida por lei.

Essa destruição é irreversível a curto prazo. Ao eliminar corredores ecológicos, o estado compromete não apenas o presente, mas o futuro ambiental das próximas gerações. A restauração dessas áreas é cara, demorada e muitas vezes inviável. Ainda assim, a gestão estadual segue ignorando o papel estratégico dessas regiões na luta contra a crise climática.


Projetos controversos: termelétricas, incineradores e mineração

Outro ponto crítico levantado pelo dossiê são os projetos considerados altamente poluentes e insustentáveis que estão sendo impulsionados ou autorizados pelo governo estadual. Entre eles, destacam-se usinas termelétricas, incineradores de resíduos e empreendimentos de mineração — todos com alto impacto ambiental e baixa contribuição para a transição energética sustentável.

As termelétricas, por exemplo, são baseadas em combustíveis fósseis como carvão, óleo diesel e gás natural. Além de emitirem grandes quantidades de gases de efeito estufa, contribuem para a poluição atmosférica local e afetam a saúde da população. Mesmo assim, novos projetos vêm sendo analisados e liberados pela gestão estadual, sem um debate público transparente ou estudos de impacto climático de longo prazo.

Os incineradores de lixo, que voltaram à pauta do governo estadual como alternativa para o problema da destinação de resíduos, também são duramente criticados. O dossiê aponta que esses equipamentos liberam dioxinas e furanos — substâncias altamente tóxicas — e contrariam a política nacional de resíduos sólidos, que prioriza reciclagem e compostagem. Além disso, prejudicam catadores de materiais recicláveis e cooperativas que dependem da cadeia de reaproveitamento.

Já os projetos de mineração, especialmente em regiões próximas a áreas de proteção ambiental, colocam em risco nascentes, aquíferos e biodiversidade. O avanço desses empreendimentos, segundo o relatório, ocorre sem a devida consulta às comunidades locais e ignora os alertas de especialistas e ambientalistas. O caso da exploração mineral na região do Vale do Ribeira é citado como exemplo de conflito entre interesses econômicos e direitos socioambientais.

Todos esses projetos têm algo em comum: são autorizados ou promovidos em nome do “desenvolvimento”, mas sem qualquer preocupação com o impacto ambiental e social. O dossiê alerta que, em vez de liderar a transição para uma economia de baixo carbono, o estado de São Paulo está investindo em retrocessos que aprofundam a crise climática.


Incentivo ao modelo rodoviarista e transporte individual

O incentivo à matriz rodoviária é outro alvo do dossiê. A política de mobilidade urbana adotada pelo governo de São Paulo tem priorizado sistematicamente o transporte individual em detrimento do transporte público e coletivo. Isso se traduz em mais obras de duplicação de rodovias, expansão de faixas para carros, concessões de pedágios e pouca ou nenhuma expansão de modais sustentáveis, como trens, metrôs e ciclovias.

Esse modelo é diretamente responsável pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa. O setor de transportes é um dos maiores emissores no estado, e a concentração de veículos movidos a combustíveis fósseis nas grandes cidades só agrava o problema. Enquanto outras capitais buscam reduzir o número de carros nas ruas, São Paulo caminha na direção oposta: estimula a compra e uso do automóvel, com isenções fiscais, financiamento fácil e obras que favorecem o tráfego individual.

Além disso, o transporte público segue precarizado, caro e insuficiente. A ausência de uma política estadual que priorize ônibus elétricos, ampliação de redes ferroviárias e integração entre os sistemas municipais contribui para o aumento da desigualdade no acesso à mobilidade. Quem mais sofre são os moradores da periferia, que gastam horas em deslocamentos diários e ainda enfrentam ônibus superlotados e sem ar-condicionado em meio a temperaturas extremas.

O dossiê também denuncia a falta de investimentos em ciclovias e infraestrutura para mobilidade ativa. A bicicleta, que poderia ser uma solução prática, barata e ecológica, é ignorada pelas políticas públicas. Mesmo com a demanda crescente, principalmente em cidades do interior, os projetos de mobilidade sustentável são engavetados ou subfinanciados.

Ao seguir investindo no modelo rodoviarista, o estado de São Paulo reforça uma lógica ultrapassada, insustentável e socialmente excludente. A crise climática exige justamente o contrário: cidades compactas, com transporte limpo, acessível e eficiente.

Privatização da Sabesp e seus riscos ambientais

A proposta de privatização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) é um dos pontos mais polêmicos da gestão Tarcísio e também um dos mais criticados no dossiê apresentado à COP30. A Sabesp é responsável pelo abastecimento de água e tratamento de esgoto em mais de 370 municípios paulistas, atendendo cerca de 28 milhões de pessoas. A venda da empresa para a iniciativa privada é apontada como um risco não apenas para o acesso à água, mas também para o controle ambiental e a governança climática.

Segundo o documento, a privatização representa a entrega de um recurso essencial — a água — ao setor privado, que tem como objetivo o lucro e não a garantia de direitos. Isso pode comprometer políticas de saneamento em regiões menos rentáveis, principalmente áreas periféricas e rurais, que demandam investimentos estruturais, mas oferecem baixo retorno financeiro. Com isso, amplia-se a desigualdade no acesso à água e à infraestrutura de saneamento.

Do ponto de vista ambiental, a Sabesp cumpre papel estratégico na gestão de bacias hidrográficas, preservação de mananciais e monitoramento da qualidade da água. Privatizar esse serviço significa reduzir a capacidade do estado de coordenar políticas públicas integradas de uso da água — algo essencial diante do agravamento da crise hídrica e da escassez de recursos naturais. Além disso, o saneamento básico está diretamente ligado à saúde pública e à mitigação de impactos climáticos urbanos, como enchentes e contaminação de rios.

O dossiê também critica a forma como o processo de privatização tem sido conduzido: sem debate público amplo, sem consulta à população usuária e com base em projeções de mercado, e não em dados ambientais e sociais. Para os parlamentares do PSOL, a entrega da Sabesp pode ser comparada a uma “venda da caixa d’água do estado”, num momento em que o clima exige justamente o contrário — mais controle público, mais planejamento e mais responsabilidade ecológica.


Venda de terras públicas e impactos socioambientais

Outro ponto sensível exposto no dossiê é a política de venda de terras públicas promovida pelo governo de Tarcísio, com descontos de até 90%. A medida, que está sendo aplicada em especial no Pontal do Paranapanema — uma das regiões mais sensíveis do ponto de vista ambiental e fundiário —, tem potencial de causar danos profundos e duradouros tanto para o meio ambiente quanto para comunidades tradicionais e trabalhadores rurais.

O Pontal é uma região historicamente marcada por conflitos agrários, presença de assentamentos da reforma agrária, reservas naturais e fragmentos importantes de Mata Atlântica. A política de venda com desconto amplia o risco de grilagem, especulação imobiliária e avanço de monoculturas e atividades agropecuárias de grande impacto ambiental. Além disso, enfraquece os instrumentos de conservação, ao tirar do Estado o controle sobre áreas de importância estratégica para a proteção dos ecossistemas.

Os grupos mais afetados por essa política são os pequenos agricultores, comunidades quilombolas, indígenas, assentados e populações periféricas que dependem da terra para sua subsistência. O dossiê aponta que essas vendas podem inviabilizar a continuidade de projetos agroecológicos, coletivos e sustentáveis desenvolvidos nas áreas, substituindo-os por empreendimentos que exploram a terra de forma predatória.

Do ponto de vista climático, o desmatamento e a degradação das áreas vendidas contribuem para o aumento da emissão de carbono, redução da biodiversidade e desequilíbrio hídrico. As terras públicas funcionam, em muitos casos, como tampão ecológico — são o último bastião de proteção ambiental em regiões já fortemente degradadas.

Ao invés de fortalecer políticas fundiárias voltadas à reforma agrária e conservação, o governo opta por abrir mão de seu patrimônio ambiental e social. O dossiê denuncia essa escolha como um retrocesso perigoso e uma clara violação da função socioambiental da terra.


Falta de planos municipais de adaptação às mudanças climáticas

Um dado que salta aos olhos no dossiê do PSOL é o que revela que apenas 5,6% dos municípios paulistas possuem planos de adaptação às mudanças climáticas, segundo o Índice de Adaptação Urbana (UAI). Isso significa que mais de 94% das cidades do estado estão vulneráveis e sem planejamento adequado para enfrentar os impactos cada vez mais severos do clima extremo.

Essa ausência de planos é reflexo direto da falta de coordenação e incentivo por parte do governo estadual. Sem uma política estadual que estimule, financie e acompanhe a elaboração desses instrumentos, os municípios — especialmente os de menor porte — ficam desassistidos e à mercê de eventos como enchentes, deslizamentos, estiagens e ondas de calor.

Os planos de adaptação são fundamentais para mapear riscos, definir ações prioritárias, orientar o uso do solo, proteger populações vulneráveis e reduzir prejuízos econômicos. Sem eles, a resposta aos desastres se torna improvisada, cara e ineficaz. O custo humano também é alto: perda de vidas, deslocamentos forçados e destruição de comunidades inteiras.

O relatório mostra que São Paulo, apesar de seu potencial técnico, científico e econômico, está atrasado em relação a outros estados e países que já implementaram estratégias robustas de adaptação. A omissão em liderar esse processo é vista como uma falha grave de gestão pública, sobretudo num momento em que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) alerta que a janela para ação está se fechando rapidamente.

O dossiê defende que o estado de São Paulo assuma sua responsabilidade como líder nacional e regional, adotando medidas urgentes para promover a adaptação climática em todos os níveis da administração pública.

O caso Neymar e a ameaça à Mata Atlântica

Um dos episódios mais emblemáticos citados no dossiê é o do novo centro de treinamento do Santos Futebol Clube, anunciado pelo pai do jogador Neymar Jr., em parceria com empresários e o prefeito de Praia Grande. O projeto prevê a construção de um complexo esportivo em uma área que inclui 90 mil metros quadrados de Mata Atlântica — um dos biomas mais ameaçados e protegidos por lei no Brasil.

O empreendimento foi lançado com pompa, mas rapidamente despertou a atenção de ambientalistas, pesquisadores e movimentos sociais. Segundo denúncia publicada pela Agência Pública, até o fim de outubro de 2025 a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) ainda não havia recebido qualquer pedido de licenciamento ambiental para a obra. Isso indica um desrespeito flagrante à legislação ambiental e levanta suspeitas sobre a condução do processo por parte das autoridades municipais e estaduais.

A ONG SOS Mata Atlântica, por meio do especialista Luís Fernando Guedes Pinto, destacou que a supressão de vegetação nativa só pode ocorrer legalmente se o empreendimento for de interesse social ou utilidade pública — o que claramente não é o caso de um centro de treinamento de futebol para um clube privado. O projeto, portanto, configura não apenas um risco ambiental direto, mas também um exemplo de como os interesses de celebridades e grandes empresários muitas vezes se sobrepõem ao interesse coletivo e às normas ambientais.

O dossiê aponta esse episódio como sintomático de uma gestão que negligencia o meio ambiente em troca de favores políticos ou acordos com setores empresariais. Além do impacto ambiental direto, o caso pode abrir um precedente perigoso: se um clube pode derrubar 90 mil m² de Mata Atlântica sem licença, outros empreendimentos podem seguir o mesmo caminho. Trata-se de uma ameaça séria à integridade dos poucos remanescentes florestais do litoral paulista, já severamente pressionados pela urbanização e turismo predatório.


O papel dos movimentos sociais e da sociedade civil no dossiê

Um dos pontos mais fortes do dossiê apresentado pelo PSOL é sua construção coletiva. Mais de 30 organizações da sociedade civil participaram da elaboração do documento, incluindo movimentos ambientais, associações de moradores, pesquisadores, coletivos periféricos, sindicatos e representantes de comunidades tradicionais. Isso confere ao relatório uma legitimidade e uma densidade social que vão além do debate institucional.

Os movimentos sociais têm atuado como uma espécie de radar climático do estado de São Paulo, denunciando abusos, monitorando projetos, organizando resistências locais e propondo alternativas sustentáveis. São eles que estão nas periferias, nos assentamentos, nas comunidades indígenas, nas quebradas e nas regiões afetadas diretamente pelos impactos ambientais. Sem a presença desses atores, muitas violações ambientais sequer viriam à tona.

O dossiê é, portanto, mais do que uma denúncia: é também um instrumento de mobilização e articulação política. Ele mostra que há, sim, um outro caminho possível — baseado na justiça climática, na participação popular, no respeito ao meio ambiente e no enfrentamento das desigualdades sociais. Os movimentos que contribuíram com o documento demonstram que é possível construir políticas ambientais de baixo para cima, com protagonismo popular.

Além disso, o envolvimento da sociedade civil fortalece o papel fiscalizador da população e expõe os limites de uma gestão que não dialoga com os territórios. O governo Tarcísio, segundo o documento, ignora sistematicamente os conselhos ambientais, desmonta mecanismos de controle social e impõe políticas sem escuta pública. O dossiê é, nesse sentido, também uma resposta organizada à tentativa de silenciamento das vozes que defendem o meio ambiente.


A resposta (ou ausência dela) do governo paulista

Até o momento da divulgação do dossiê, o governo de São Paulo não apresentou uma resposta formal às denúncias feitas pelo PSOL e pelas organizações da sociedade civil. Essa ausência de resposta pública reforça a tese de omissão que permeia todo o relatório. Em vez de dialogar com os dados apresentados, o governo opta pelo silêncio — o que pode ser interpretado como desprezo à gravidade das acusações.

Nos poucos posicionamentos indiretos feitos por representantes do governo, a narrativa gira em torno de “modernização”, “eficiência” e “atração de investimentos”. No entanto, essas palavras não vêm acompanhadas de planos concretos, metas ambientais ou compromissos com a transição ecológica. O discurso oficial permanece genérico e desconectado das urgências climáticas que afetam diretamente milhões de paulistas.

O silêncio institucional também denuncia uma postura política: a de governar de costas para os setores populares e ambientais. Ao não responder às críticas, o governo sinaliza que não pretende mudar sua rota, mesmo diante de alertas científicos, pressão internacional e aumento dos desastres ambientais. Essa postura alimenta um ciclo de desinformação, enfraquecimento da democracia ambiental e naturalização da degradação ecológica.

A expectativa é que a apresentação do dossiê na COP30, diante de observadores internacionais, ONGs globais, acadêmicos e representantes de países, pressione o governo estadual a se posicionar. Caso contrário, São Paulo corre o risco de se consolidar como um exemplo negativo de gestão ambiental em um momento histórico de virada climática.


Conclusão

O dossiê levado pelo PSOL à COP30 é mais do que uma denúncia: é um grito de alerta. Em um estado com o peso econômico, político e estratégico de São Paulo, a omissão diante da crise climática não é apenas um erro de gestão — é um crime contra as futuras gerações. As escolhas feitas pelo governo Tarcísio de Freitas escancaram uma lógica que privilegia o lucro, o concreto e a privatização, ignorando os limites do planeta e as necessidades do povo.

Desmatamento, urbanização descontrolada, privatização de recursos naturais, ausência de planejamento climático e incentivo a modelos ultrapassados de desenvolvimento compõem um retrato sombrio da política ambiental paulista. Enquanto o mundo discute soluções e metas na COP30, o governo de São Paulo caminha na contramão da história.

O dossiê, ao expor essas contradições, cumpre um papel essencial: mostra que há resistência, que há alternativas e que há uma parcela da sociedade disposta a lutar por justiça climática. Cabe agora à opinião pública, à comunidade internacional e às instituições democráticas fazerem sua parte e cobrar responsabilidades.


FAQs

1. O que é a COP30 e por que ela é importante?
A COP30 é a 30ª Conferência da ONU sobre o Clima, que reúne líderes mundiais para discutir ações contra as mudanças climáticas. Será realizada em Belém e destaca a importância da Amazônia no combate à crise climática.

2. O que o PSOL denuncia no dossiê apresentado à COP30?
O PSOL denuncia a omissão do governo de São Paulo em relação às mudanças climáticas, destacando políticas públicas ineficientes, desmatamento, privatizações e falta de planejamento climático.

3. Quais são os impactos da privatização da Sabesp?
A privatização pode prejudicar o acesso à água em regiões pobres, enfraquecer a gestão ambiental e transformar um direito básico em mercadoria, dificultando o combate à crise hídrica.

4. Como o caso Neymar se relaciona com a crise ambiental?
O novo centro de treinamento do Santos FC pode destruir 90 mil m² de Mata Atlântica sem licenciamento adequado, mostrando como grandes empreendimentos ignoram leis ambientais com apoio político.

5. O que o dossiê propõe como solução?
O dossiê propõe mais controle público, fortalecimento de políticas ambientais, participação social e planejamento climático efetivo em todos os níveis de governo.




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