segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A PRAIA GRANDE SERIA "MIAMI BRASILEIRA" OU A "BELÍNDIA"?


A compreensão da dinâmica urbana de Praia Grande, município estratégico da Região Metropolitana da Baixada Santista, exige o uso de ferramentas analíticas que transcendam a mera observação estatística superficial. Ao questionar se o município se enquadra no arquétipo da "Belíndia", evoca-se uma das metáforas mais resilientes e potentes da economia brasileira, capaz de sintetizar a coexistência de estratos sociais e geográficos que parecem pertencer a mundos distintos. Este relatório analisa a aplicabilidade desse conceito a Praia Grande, investigando como o desenvolvimento econômico acelerado, o boom imobiliário e a expansão demográfica consolidaram uma estrutura urbana marcada pela dualidade entre uma orla verticalizada e próspera e um interior periférico em luta por serviços básicos.

I. A Gênese e Evolução da Metáfora da Belíndia

Para avaliar se Praia Grande é a "Belíndia" do litoral sul, é imperativo revisitar a origem e a evolução semântica desse termo. A expressão foi popularizada em 1974 pelo economista Edmar Lisboa Bacha, então em uma crítica contundente ao modelo de crescimento adotado pelo regime militar brasileiro.1 Na fábula "O Rei da Belíndia", Bacha descreveu um país fictício resultante da conjunção entre a Bélgica e a Índia.2 Este país possuiria as leis, a carga tributária e o padrão de consumo de uma nação pequena, rica e desenvolvida — a Bélgica —, mas assentaria essa estrutura sobre uma realidade social e uma base populacional vasta e empobrecida — a Índia.1

A crítica central de Bacha residia na opacidade dos indicadores macroeconômicos da época. O chamado "Milagre Econômico" exibia taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) impressionantes, mas falhava em demonstrar como essa riqueza era distribuída.1 O autor argumentava que o Brasil estava se tornando um país dividido, onde uma minoria desfrutava de condições de vida europeias enquanto a maioria permanecia submersa em carências estruturais típicas do subdesenvolvimento asiático da metade do século XX.2

Ao longo das décadas, o conceito de Belíndia tornou-se um sinônimo da desigualdade extrema no Brasil, sucedendo termos como "os dois Brasis" de Jacques Lambert ou "Brasil, terra de contrastes" de Roger Bastide.4 Em 2009, o próprio Bacha sugeriu uma atualização para "Ingana", refletindo um país com impostos da Inglaterra e serviços públicos de Gana.3 Mais recentemente, a revista The Economist propôs a "Italordânia", indicando que a parcela rica do país havia alcançado o nível de renda da Itália, enquanto a parcela pobre assemelhava-se à realidade da Jordânia.3 Apesar dessas variações, a essência do termo Belíndia permanece como a ferramenta mais eficaz para descrever a natureza geográfica e social da estratificação brasileira, onde a "Índia" e a "Bélgica" não são apenas grupos de pessoas, mas territórios físicos bem delineados.4

II. Praia Grande no Contexto da Baixada Santista: Demografia e Crescimento

Praia Grande emergiu, nas últimas décadas, como o município de crescimento mais vertiginoso na Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS). De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2022, a população da cidade atingiu 349.935 habitantes, consolidando-se como a segunda cidade mais populosa do litoral paulista, atrás apenas de Santos.5 Esse crescimento não é apenas um fenômeno quantitativo, mas reflete uma mudança qualitativa na ocupação do solo e na função regional da cidade.

Indicador DemográficoValor/DadosFonte
População Total (Censo 2022)349.935 habitantes6
População Estimada (2024)365.577 habitantes7
Densidade Demográfica (2022)2.338,32 hab/km²5
Crescimento 2010-2022Maior da Baixada Santista5
Área Territorial149,652 km²5

A evolução demográfica de Praia Grande é impulsionada por uma dinâmica que pesquisadores definem como uma "periferia com dois centros".8 Diferente de outras cidades litorâneas que dependem exclusivamente do polo regional (Santos), Praia Grande serve como uma área de expansão simultânea para a RMBS e para a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).8 Grande parte dos novos moradores provém da capital paulista, buscando o município tanto para o veraneio sazonal quanto para a fixação residencial definitiva, facilitada pela consolidação do trabalho remoto e pela infraestrutura viária.8

Essa inserção regional peculiar é o combustível para a sua configuração como Belíndia. De um lado, o fluxo de capital vindo de São Paulo alimenta a face "belga" da cidade, visível na orla marítima; de outro, a demanda por serviços e a migração de trabalhadores em busca de oportunidades na construção civil e nos serviços urbanos incham as áreas periféricas, muitas vezes sem o acompanhamento proporcional de investimentos em infraestrutura social, criando a face "indiana".8

III. A "Bélgica" Litorânea: O Mercado Imobiliário e a Verticalização

A face próspera de Praia Grande é indissociável de seu mercado imobiliário, que hoje lidera o volume de lançamentos na região.12 A cidade detém quase metade da oferta imobiliária total da Baixada Santista, com um estoque que supera amplamente o de cidades tradicionalmente ricas como Santos.12 Este desenvolvimento é marcado por uma verticalização intensa e pela revitalização dos 22,5 quilômetros de orla, que funcionam como o cartão-postal da "Bélgica" local.13

A valorização imobiliária em bairros como Canto do Forte, Guilhermina e Boqueirão é sustentada por investimentos massivos em paisagismo, segurança e equipamentos de lazer.10 O valor do metro quadrado tem apresentado altas constantes, superando a inflação e consolidando a cidade como um destino de investimento seguro.10 O perfil das unidades lançadas é variado, mas o predomínio é do padrão standard (entre R$ 350 mil e R$ 700 mil) e médio, com incursões crescentes no mercado de alto luxo, onde coberturas podem atingir valores de R$ 6,5 milhões.12

Segmento ImobiliárioUnidades em Oferta (Exemplo)Faixa de Preço (R$)
Padrão Standard4.835350 mil a 700 mil
Padrão Médio4.322700 mil a 1,25 milhão
Compacto (Estúdio/1 dorm)1.781Variável
Alto Padrão / LuxoCrescente em bairros nobresAcima de 2 milhões

Essa pujança econômica, no entanto, é criticada por criar uma segregação socioespacial "imposta".11 A infraestrutura de alta qualidade da orla, incluindo quiosques modernos, sanitários públicos com tecnologia de LED e jardins verticais, contrasta com a realidade dos bairros situados "atrás" da rodovia.13 O poder público, muitas vezes agindo sob pressão de promotores imobiliários, prioriza a manutenção da cidade-vitrine para atrair turistas e investidores, reforçando a hierarquia urbana onde o acesso ao mar define o nível de cidadania e de serviços recebidos.14

IV. A "Índia" Interiorana: Periferização e Vulnerabilidade Social

A face "indiana" de Praia Grande manifesta-se nos bairros localizados além do eixo da rodovia Padre Manoel da Nóbrega e da Via Expressa Sul. Nomes como Ribeirópolis, Melvi, Samambaia e Vila Sônia representam a base da pirâmide socioeconômica do município.15 Nestes territórios, a densidade populacional é muito maior, mas a oferta de equipamentos públicos de qualidade é inversamente proporcional.11

Estudos acadêmicos apontam que a concentração de equipamentos privados de lazer e saúde ocorre em áreas de alto poder aquisitivo e baixa densidade populacional, enquanto a população de menor renda, composta majoritariamente por pretos, pardos e mulheres chefes de família, depende exclusivamente de serviços públicos sobrecarregados.11 A segregação é física e simbólica: a rodovia atua como uma fronteira que separa a cidade dos turistas e da elite da cidade dos trabalhadores residentes.11

O Caso de Ribeirópolis e a Luta por Moradia

O bairro Ribeirópolis serve como um microcosmo das tensões da Belíndia praia-grandense. Relatos recentes denunciam a existência de comunidades que vivem há mais de duas décadas sem saneamento básico, iluminação pública ou asfalto.17 Nestas áreas, o conflito com o mercado imobiliário e o poder público é agudo. Moradores relatam despejos violentos e destruição de casas em terrenos que se tornaram alvos da especulação imobiliária, enquanto a prefeitura é acusada de negligência na oferta de infraestrutura básica.17

As condições de vida nessas periferias são precárias. A falta de saneamento expõe a população ao esgoto a céu aberto, resultando em internações frequentes de crianças por doenças infecciosas.17 A ausência de iluminação pública obriga os próprios moradores a investirem em refletores para garantir um mínimo de segurança nas ruas.17 Essa realidade configura o lado "Índia" da metáfora: uma população que contribui com impostos e força de trabalho, mas que habita um espaço urbano desmantelado, longe do brilho da orla revitalizada.3

V. O Paradoxo do Saneamento Básico em Praia Grande

Um dos pontos mais controversos na análise de Praia Grande como Belíndia é o setor de saneamento básico. De um lado, o município é celebrado nacionalmente por seus indicadores de investimento; de outro, persistem bolsões de precariedade absoluta. Praia Grande é citada como a cidade que mais investe em saneamento por habitante no Brasil, com um aporte médio de R$ 616,34 — valor muito superior ao ideal recomendado pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (R$ 223,82).18

Dados de Saneamento (Oficiais)Percentual/ValorFonte
Atendimento de Água (Pop. Urbana)97,39%18
Coleta de Esgoto85,02%18
Tratamento de Esgoto Coletado100,00%19
Investimento por Habitante (2023)R$ 616,3418
Média Nacional de InvestimentoR$ 103,1618

O paradoxo reside no fato de que, apesar desses números robustos, o Censo de 2010 já apontava a existência de centenas de famílias sem canalização de água e milhares dependentes de fossas rudimentares.19 A excelência estatística é alcançada pela concentração de redes nos eixos de alta valorização, enquanto o crescimento populacional acelerado nos bairros periféricos e aglomerados subnormais (favelas) ocorre em uma velocidade que o braço público não consegue ou não prioriza acompanhar.9 O Marco Legal do Saneamento estabelece metas ambiciosas para 2033, mas para as comunidades da "Índia" de Praia Grande, a espera já dura décadas.17

VI. Indicadores de Desigualdade: Gini, IDHM e PIB Per Capita

A análise quantitativa reforça a tese da dualidade. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Praia Grande é considerado alto (0,754), mas uma decomposição dos seus pilares revela disparidades instrutivas.19 A longevidade apresenta o maior índice (0,83), refletindo melhorias gerais na saúde pública e qualidade de vida, mas o pilar da educação (0,69) ainda é um entrave, evidenciando que a formação de capital humano não acompanha o ritmo do crescimento econômico físico da cidade.19

O Coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda, situa-se em 0,49.19 Em uma escala onde 1 representa a desigualdade máxima, esse valor indica uma concentração de renda significativa em um município que produz um PIB per capita anual entre R$ 25.940,00 e R$ 32.567,00.7 A riqueza gerada pela construção civil e pelo turismo não transborda de forma equânime para a massa salarial dos residentes fixos, muitos dos quais trabalham na informalidade ou em empregos de baixa remuneração no setor de serviços.7

VII. Segregação Socioespacial e a Teoria dos Dois Centros

A configuração de Praia Grande como Belíndia é aprofundada por sua dinâmica migratória e pendular. A pesquisa de Cunha et al. (2018) destaca que o município consolidou-se como uma "periferia simultânea" de duas metrópoles.8 Isso significa que a cidade absorve tanto a população que não consegue mais se sustentar no polo de Santos (devido ao alto custo de vida e falta de espaço para expansão) quanto migrantes da capital paulista.8

Essa pressão dupla cria uma fragmentação do espaço urbano. O "centro" de lazer e consumo está na orla, voltado para fora (para o turista e o investidor de São Paulo), enquanto o "centro" da vida cotidiana e do trabalho reside nos bairros interiores, voltado para dentro, mas carente de centralidade administrativa e de serviços de alta qualidade.9 A rodovia, que deveria ser um eixo de integração, acaba funcionando como um muro social. O processo de verticalização, que em Santos gera um adensamento mais homogêneo, em Praia Grande acentua a separação entre os que moram "com vista para o mar" e os que habitam as "bordas" da cidade.11

VIII. O Papel do Planejamento Urbano e o Plano Diretor

O combate à condição de Belíndia passa necessariamente pelo Plano Diretor e pelas políticas de ordenamento do uso do solo. O Plano Diretor de Praia Grande (Lei Complementar 727/2016) estabelece diretrizes para garantir a função social da propriedade e promover o desenvolvimento sustentável.24 No entanto, a aplicação desses instrumentos muitas vezes esbarra na priorização de obras de infraestrutura viária e turística que reforçam o modelo excludente.14

Recentemente, a prefeitura anunciou pautas prioritárias de infraestrutura que incluem a requalificação de avenidas que ligam bairros periféricos como Ribeirópolis, Melvi e Samambaia ao sistema viário principal, além da construção de passagens inferiores para pedestres nas rodovias.26 Projetos como o "Corredor Verde" na Avenida da Integração, no bairro Nova Mirim, tentam trazer elementos de urbanismo moderno para fora do eixo da orla, visando melhorar a saúde e o lazer da população residente.27 Contudo, a escala desses investimentos ainda é modesta quando comparada aos projetos de luxo da "Bélgica" litorânea.12

Regularização Fundiária e Habitação

Um avanço importante na tentativa de integrar a "Índia" ao tecido urbano formal é a parceria entre a prefeitura e o ITESP para a regularização fundiária de mais de 1.300 lotes em sete bairros periféricos.16 A regularização é a porta de entrada para a cidadania, permitindo que moradores obtenham títulos de propriedade e que o poder público instale redes formais de água, esgoto e iluminação em áreas antes consideradas "invisíveis" aos olhos do Estado.16 Entretanto, o déficit habitacional permanece crítico, com programas sociais como o "Minha Casa, Minha Vida" atendendo apenas uma fração mínima da demanda reprimida.12

IX. Análise Crítica: Praia Grande é a Belíndia?

Ao sintetizar as evidências coletadas, a conclusão é que Praia Grande não apenas se assemelha à Belíndia, mas funciona como um dos exemplos mais didáticos dessa metáfora no Brasil contemporâneo. A dualidade não é apenas de renda, mas de projeto de cidade.

A "Bélgica" de Praia Grande é real e visível: uma orla com IDH de nível europeu, saneamento de ponta, segurança tecnológica e um mercado imobiliário que rivaliza com os maiores do país.12 É a cidade que atrai o capital da metrópole paulista e que se vende como um paraíso de lazer e modernidade.10

A "Índia" de Praia Grande também é real e, embora muitas vezes escondida atrás das rodovias, abriga a maior parte da população fixa: bairros com esgoto a céu aberto, conflitos violentos por terra, carência de transporte interno eficiente e uma exclusão sistemática do acesso ao lazer de qualidade.11

A persistência dessa dualidade em um município que detém recursos financeiros e uma das maiores taxas de investimento per capita em infraestrutura do país sugere que a questão não é a falta de capital, mas a sua alocação. Praia Grande exemplifica a crítica original de Edmar Bacha: o crescimento econômico e o desenvolvimento físico da cidade avançam "de uma banda", deixando a outra "desmantelada".1

X. Síntese de Conclusões e Recomendações

O diagnóstico de Praia Grande como Belíndia revela que o sucesso econômico do município é, simultaneamente, seu maior desafio social. Para romper com este ciclo de desigualdade geográfica, as recomendações derivadas desta análise incluem:

  1. Priorização de Infraestrutura Social: Deslocar o foco dos investimentos de "embelezamento" da orla para a estruturação básica das periferias profundas, garantindo que o saneamento básico de 100% chegue às casas dos bairros como Ribeirópolis e Melvi.17

  2. Integração Viária e Mobilidade: Transformar a rodovia Padre Manoel da Nóbrega de uma barreira em um eixo de conexão, com mais passagens inferiores, passarelas e um sistema de transporte público intraurbano que facilite o acesso da periferia à orla e vice-versa.26

  3. Democratização do Lazer e Cultura: Descentralizar a oferta de equipamentos culturais e esportivos, levando para o interior do município o mesmo padrão de qualidade dos quiosques e praças da orla, visando reduzir a segregação socioespacial.11

  4. Aceleração da Regularização Fundiária: Ampliar parcerias como a do ITESP para cobrir a totalidade dos aglomerados subnormais, garantindo dignidade habitacional e segurança jurídica para a classe trabalhadora que sustenta o crescimento da cidade.16

Em última análise, Praia Grande tem o potencial de deixar de ser uma Belíndia para se tornar um modelo de integração urbana litorânea. Contudo, isso exigirá uma governança que reconheça que o bem-estar do turista na "Bélgica" não pode ser construído sobre a invisibilidade e a precariedade da "Índia" residente. A superação da dualidade é a única forma de garantir que o crescimento da cidade seja sustentável e que a "Estância Balneária" seja, de fato, para todos os seus cidadãos.


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