A compreensão da dinâmica urbana de Praia Grande, município estratégico da Região Metropolitana da Baixada Santista, exige o uso de ferramentas analíticas que transcendam a mera observação estatística superficial. Ao questionar se o município se enquadra no arquétipo da "Belíndia", evoca-se uma das metáforas mais resilientes e potentes da economia brasileira, capaz de sintetizar a coexistência de estratos sociais e geográficos que parecem pertencer a mundos distintos. Este relatório analisa a aplicabilidade desse conceito a Praia Grande, investigando como o desenvolvimento econômico acelerado, o boom imobiliário e a expansão demográfica consolidaram uma estrutura urbana marcada pela dualidade entre uma orla verticalizada e próspera e um interior periférico em luta por serviços básicos.
I. A Gênese e Evolução da Metáfora da Belíndia
Para avaliar se Praia Grande é a "Belíndia" do litoral sul, é imperativo revisitar a origem e a evolução semântica desse termo. A expressão foi popularizada em 1974 pelo economista Edmar Lisboa Bacha, então em uma crítica contundente ao modelo de crescimento adotado pelo regime militar brasileiro.
A crítica central de Bacha residia na opacidade dos indicadores macroeconômicos da época. O chamado "Milagre Econômico" exibia taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) impressionantes, mas falhava em demonstrar como essa riqueza era distribuída.
Ao longo das décadas, o conceito de Belíndia tornou-se um sinônimo da desigualdade extrema no Brasil, sucedendo termos como "os dois Brasis" de Jacques Lambert ou "Brasil, terra de contrastes" de Roger Bastide.
II. Praia Grande no Contexto da Baixada Santista: Demografia e Crescimento
Praia Grande emergiu, nas últimas décadas, como o município de crescimento mais vertiginoso na Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS). De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2022, a população da cidade atingiu 349.935 habitantes, consolidando-se como a segunda cidade mais populosa do litoral paulista, atrás apenas de Santos.
| Indicador Demográfico | Valor/Dados | Fonte |
| População Total (Censo 2022) | 349.935 habitantes | |
| População Estimada (2024) | 365.577 habitantes | |
| Densidade Demográfica (2022) | 2.338,32 hab/km² | |
| Crescimento 2010-2022 | Maior da Baixada Santista | |
| Área Territorial | 149,652 km² |
A evolução demográfica de Praia Grande é impulsionada por uma dinâmica que pesquisadores definem como uma "periferia com dois centros".
Essa inserção regional peculiar é o combustível para a sua configuração como Belíndia. De um lado, o fluxo de capital vindo de São Paulo alimenta a face "belga" da cidade, visível na orla marítima; de outro, a demanda por serviços e a migração de trabalhadores em busca de oportunidades na construção civil e nos serviços urbanos incham as áreas periféricas, muitas vezes sem o acompanhamento proporcional de investimentos em infraestrutura social, criando a face "indiana".
III. A "Bélgica" Litorânea: O Mercado Imobiliário e a Verticalização
A face próspera de Praia Grande é indissociável de seu mercado imobiliário, que hoje lidera o volume de lançamentos na região.
A valorização imobiliária em bairros como Canto do Forte, Guilhermina e Boqueirão é sustentada por investimentos massivos em paisagismo, segurança e equipamentos de lazer.
| Segmento Imobiliário | Unidades em Oferta (Exemplo) | Faixa de Preço (R$) |
| Padrão Standard | 4.835 | 350 mil a 700 mil |
| Padrão Médio | 4.322 | 700 mil a 1,25 milhão |
| Compacto (Estúdio/1 dorm) | 1.781 | Variável |
| Alto Padrão / Luxo | Crescente em bairros nobres | Acima de 2 milhões |
Essa pujança econômica, no entanto, é criticada por criar uma segregação socioespacial "imposta".
IV. A "Índia" Interiorana: Periferização e Vulnerabilidade Social
A face "indiana" de Praia Grande manifesta-se nos bairros localizados além do eixo da rodovia Padre Manoel da Nóbrega e da Via Expressa Sul. Nomes como Ribeirópolis, Melvi, Samambaia e Vila Sônia representam a base da pirâmide socioeconômica do município.
Estudos acadêmicos apontam que a concentração de equipamentos privados de lazer e saúde ocorre em áreas de alto poder aquisitivo e baixa densidade populacional, enquanto a população de menor renda, composta majoritariamente por pretos, pardos e mulheres chefes de família, depende exclusivamente de serviços públicos sobrecarregados.
O Caso de Ribeirópolis e a Luta por Moradia
O bairro Ribeirópolis serve como um microcosmo das tensões da Belíndia praia-grandense. Relatos recentes denunciam a existência de comunidades que vivem há mais de duas décadas sem saneamento básico, iluminação pública ou asfalto.
As condições de vida nessas periferias são precárias. A falta de saneamento expõe a população ao esgoto a céu aberto, resultando em internações frequentes de crianças por doenças infecciosas.
V. O Paradoxo do Saneamento Básico em Praia Grande
Um dos pontos mais controversos na análise de Praia Grande como Belíndia é o setor de saneamento básico. De um lado, o município é celebrado nacionalmente por seus indicadores de investimento; de outro, persistem bolsões de precariedade absoluta. Praia Grande é citada como a cidade que mais investe em saneamento por habitante no Brasil, com um aporte médio de R$ 616,34 — valor muito superior ao ideal recomendado pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (R$ 223,82).
| Dados de Saneamento (Oficiais) | Percentual/Valor | Fonte |
| Atendimento de Água (Pop. Urbana) | 97,39% | |
| Coleta de Esgoto | 85,02% | |
| Tratamento de Esgoto Coletado | 100,00% | |
| Investimento por Habitante (2023) | R$ 616,34 | |
| Média Nacional de Investimento | R$ 103,16 |
O paradoxo reside no fato de que, apesar desses números robustos, o Censo de 2010 já apontava a existência de centenas de famílias sem canalização de água e milhares dependentes de fossas rudimentares.
VI. Indicadores de Desigualdade: Gini, IDHM e PIB Per Capita
A análise quantitativa reforça a tese da dualidade. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Praia Grande é considerado alto (0,754), mas uma decomposição dos seus pilares revela disparidades instrutivas.
O Coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda, situa-se em 0,49.
VII. Segregação Socioespacial e a Teoria dos Dois Centros
A configuração de Praia Grande como Belíndia é aprofundada por sua dinâmica migratória e pendular. A pesquisa de Cunha et al. (2018) destaca que o município consolidou-se como uma "periferia simultânea" de duas metrópoles.
Essa pressão dupla cria uma fragmentação do espaço urbano. O "centro" de lazer e consumo está na orla, voltado para fora (para o turista e o investidor de São Paulo), enquanto o "centro" da vida cotidiana e do trabalho reside nos bairros interiores, voltado para dentro, mas carente de centralidade administrativa e de serviços de alta qualidade.
VIII. O Papel do Planejamento Urbano e o Plano Diretor
O combate à condição de Belíndia passa necessariamente pelo Plano Diretor e pelas políticas de ordenamento do uso do solo. O Plano Diretor de Praia Grande (Lei Complementar 727/2016) estabelece diretrizes para garantir a função social da propriedade e promover o desenvolvimento sustentável.
Recentemente, a prefeitura anunciou pautas prioritárias de infraestrutura que incluem a requalificação de avenidas que ligam bairros periféricos como Ribeirópolis, Melvi e Samambaia ao sistema viário principal, além da construção de passagens inferiores para pedestres nas rodovias.
Regularização Fundiária e Habitação
Um avanço importante na tentativa de integrar a "Índia" ao tecido urbano formal é a parceria entre a prefeitura e o ITESP para a regularização fundiária de mais de 1.300 lotes em sete bairros periféricos.
IX. Análise Crítica: Praia Grande é a Belíndia?
Ao sintetizar as evidências coletadas, a conclusão é que Praia Grande não apenas se assemelha à Belíndia, mas funciona como um dos exemplos mais didáticos dessa metáfora no Brasil contemporâneo. A dualidade não é apenas de renda, mas de projeto de cidade.
A "Bélgica" de Praia Grande é real e visível: uma orla com IDH de nível europeu, saneamento de ponta, segurança tecnológica e um mercado imobiliário que rivaliza com os maiores do país.
A "Índia" de Praia Grande também é real e, embora muitas vezes escondida atrás das rodovias, abriga a maior parte da população fixa: bairros com esgoto a céu aberto, conflitos violentos por terra, carência de transporte interno eficiente e uma exclusão sistemática do acesso ao lazer de qualidade.
A persistência dessa dualidade em um município que detém recursos financeiros e uma das maiores taxas de investimento per capita em infraestrutura do país sugere que a questão não é a falta de capital, mas a sua alocação. Praia Grande exemplifica a crítica original de Edmar Bacha: o crescimento econômico e o desenvolvimento físico da cidade avançam "de uma banda", deixando a outra "desmantelada".
X. Síntese de Conclusões e Recomendações
O diagnóstico de Praia Grande como Belíndia revela que o sucesso econômico do município é, simultaneamente, seu maior desafio social. Para romper com este ciclo de desigualdade geográfica, as recomendações derivadas desta análise incluem:
Priorização de Infraestrutura Social: Deslocar o foco dos investimentos de "embelezamento" da orla para a estruturação básica das periferias profundas, garantindo que o saneamento básico de 100% chegue às casas dos bairros como Ribeirópolis e Melvi.
17 Integração Viária e Mobilidade: Transformar a rodovia Padre Manoel da Nóbrega de uma barreira em um eixo de conexão, com mais passagens inferiores, passarelas e um sistema de transporte público intraurbano que facilite o acesso da periferia à orla e vice-versa.
26 Democratização do Lazer e Cultura: Descentralizar a oferta de equipamentos culturais e esportivos, levando para o interior do município o mesmo padrão de qualidade dos quiosques e praças da orla, visando reduzir a segregação socioespacial.
11 Aceleração da Regularização Fundiária: Ampliar parcerias como a do ITESP para cobrir a totalidade dos aglomerados subnormais, garantindo dignidade habitacional e segurança jurídica para a classe trabalhadora que sustenta o crescimento da cidade.
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Em última análise, Praia Grande tem o potencial de deixar de ser uma Belíndia para se tornar um modelo de integração urbana litorânea. Contudo, isso exigirá uma governança que reconheça que o bem-estar do turista na "Bélgica" não pode ser construído sobre a invisibilidade e a precariedade da "Índia" residente. A superação da dualidade é a única forma de garantir que o crescimento da cidade seja sustentável e que a "Estância Balneária" seja, de fato, para todos os seus cidadãos.
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