sexta-feira, 27 de junho de 2025

A Rocha e o Mar: A Festa de São Pedro como Símbolo da Identidade de Praia Grande


I. O Coração de uma Cidade: Uma Introdução à Festa de São Pedro

Ao cair da noite de 29 de junho, o Bairro Caiçara, em Praia Grande, transforma-se. O ar, normalmente impregnado pela maresia, ganha novas nuances: o aroma de milho cozido, pastel e outras iguarias típicas de quermesse se mistura ao cheiro salgado do oceano. Da Praça São Pedro, epicentro da celebração, emanam os acordes de música sertaneja, as risadas de famílias e o burburinho de uma multidão que se reúne com um propósito comum. Luzes festivas contornam a praça e a paróquia, criando um brilho acolhedor que reflete o espírito do evento. Esta atmosfera vibrante e multissensorial revela que a Festa de São Pedro é muito mais que uma data no calendário; é a manifestação viva da alma de uma comunidade.  

A celebração em honra ao padroeiro de Praia Grande constitui um fenômeno cultural único e dinâmico. Ela serve como um espelho que reflete a trajetória da própria cidade, homenageando simultaneamente sua identidade fundadora, ligada à comunidade pesqueira, e abraçando expressões culturais e religiosas contemporâneas. O evento funciona como um nexo onde fé, orgulho cívico e vida comunitária se encontram e se fortalecem, revelando as camadas de história, tradição e modernidade que compõem o tecido social de Praia Grande.

 

II. "Sobre esta Rocha": O Legado Duradouro de São Pedro, o Santo dos Pescadores

Para compreender a profundidade da festa, é essencial conhecer a figura central que ela homenageia. São Pedro, nascido Simão, era um pescador de Betsaida, na Galileia, que trabalhava nas águas do mar com seu irmão, André. Sua vida foi transformada ao encontrar Jesus, que o renomeou Pedro — do grego  

Petros, que significa "pedra" ou "rocha" — e proferiu as palavras que se tornariam um pilar do cristianismo: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja". Embora sua jornada tenha sido marcada por provações, como a negação de Cristo por três vezes, ele se tornou o líder dos apóstolos após a ressurreição e é reconhecido pela tradição católica como o primeiro Papa. Seu martírio em Roma, onde, segundo a tradição, pediu para ser crucificado de cabeça para baixo por não se julgar digno de morrer como seu mestre, selou seu legado de fé e liderança.  

A designação de São Pedro como padroeiro dos pescadores não é fortuita. Ela remete diretamente à sua profissão original e a episódios bíblicos marcantes, como o da pesca milagrosa, em que Jesus, após uma noite de redes vazias, instrui Pedro a lançá-las novamente, resultando numa captura abundante. É nesse momento que ele é chamado a se tornar "pescador de homens". Essa conexão intrínseca com o mar e com a labuta diária dos que dele tiram seu sustento fez de São Pedro uma figura de devoção natural para comunidades costeiras em todo o mundo, incluindo as brasileiras.  

A celebração de seu dia, em 29 de junho, insere-se no ciclo das tradicionais Festas Juninas do Brasil, ao lado de Santo Antônio (13 de junho) e São João (24 de junho). Juntos, eles formam a tríade de santos que marcam um dos períodos mais festivos e culturalmente ricos do calendário popular e religioso do país.  

III. Das Redes Humildes à Lei Cívica: A História de um Padroeiro em Praia Grande

A relação de Praia Grande com São Pedro é tão antiga quanto a própria vocação marítima da cidade. Antes mesmo de sua emancipação, quando ainda era uma vila pertencente a São Vicente, seus primeiros moradores, em sua maioria pescadores, já o tinham como protetor. Era a ele que pediam proteção antes de lançar suas redes ao mar, numa devoção orgânica e enraizada no cotidiano.  

No entanto, a formalização dessa devoção em identidade cívica foi um processo longo. Após a emancipação político-administrativa em 1967, a cidade passou 40 anos sem um padroeiro oficialmente designado, um período de indecisão que reflete a própria jornada de uma cidade em rápida formação. Este hiato sugere uma fase inicial focada na construção de infraestrutura e na organização administrativa, típica de municípios em crescimento. A posterior busca por um símbolo unificador, como um santo padroeiro, marca a transição para uma fase mais madura de consolidação de uma identidade cultural e histórica compartilhada.  

Dois momentos foram cruciais para selar o destino de São Pedro como o protetor oficial da cidade:

  1. A Igreja (1982): Em 29 de junho de 1982, foi lançada a pedra fundamental da Igreja São Pedro Apóstolo, no Bairro Caiçara. Este ato foi um marco, materializando a fé da comunidade em um espaço físico. A iniciativa partiu de um pedido dos próprios pescadores, entre eles Francisco de Sá, que doou o terreno para a construção, demonstrando o enraizamento popular da devoção.  

  2. A Lei (2007-2010): Quarenta anos após a emancipação, um movimento liderado por figuras como o Padre Joseph Thomas, da Paróquia Nossa Senhora das Graças, culminou na oficialização de São Pedro como padroeiro através da Lei Municipal nº 1.347/07. A importância cívica deste ato foi consolidada com o  

    Decreto nº 1506/10, que instituiu o dia 29 de junho como feriado municipal. A instituição de um feriado, diferentemente de um ponto facultativo, obriga a paralisação das atividades públicas e privadas, com exceção dos serviços essenciais, conferindo à data um peso cívico que transcende a esfera puramente religiosa e a inscreve no calendário oficial de toda a cidade.  

IV. Uma Celebração de Fé e Comunidade: O Guia Completo das Festividades de 2025

As comemorações em honra a São Pedro em 2025 prometem unir moradores e visitantes em uma programação que mescla devoção religiosa, cultura local e entretenimento familiar. Com o epicentro na Paróquia São Pedro Apóstolo, no Bairro Caiçara, os eventos são gratuitos e contam com o apoio da Prefeitura Municipal.  

Tabela: Programação Completa da Festa de São Pedro 2025

Data

Horário

Evento

Local

Sábado (28/06)

15h às 23h

Quermesse com comidas típicas juninas

Praça São Pedro, Bairro Caiçara

18h

Terço de São Pedro

Paróquia São Pedro Apóstolo

19h

Missa

Paróquia São Pedro Apóstolo

20h45

Apresentação de Quadrilha do Colégio França

Praça São Pedro, Bairro Caiçara

21h30

Show Musical com a Banda Estylo Sertanejo

Praça São Pedro, Bairro Caiçara

Domingo (29/06)

08h, 10h, 15h

Missas

Paróquia São Pedro Apóstolo

15h às 23h

Quermesse com comidas típicas juninas

Praça São Pedro, Bairro Caiçara

18h

Missa Campal Solene

Praça São Pedro, Bairro Caiçara

19h30

Espetáculo Teatral "Tu és Pedro"

Praça São Pedro, Bairro Caiçara

21h

Show Musical com Wagner Viana

Praça São Pedro, Bairro Caiçara

Fonte: Prefeitura de Praia Grande, A Tribuna, Juicy Santos  

A Véspera da Festa (Sábado, 28 de junho): A Comunidade se Reúne

O sábado dá início às celebrações com a abertura da quermesse às 15h, transformando a Praça São Pedro em um espaço de confraternização familiar. Às 18h, o clima festivo dá lugar à devoção com o Terço de São Pedro, seguido pela missa na paróquia às 19h. A noite retoma seu tom cultural com a tradicional apresentação de quadrilha junina pelo Colégio França às 20h45 e encerra com o show da banda Estylo Sertanejo, que levará o ritmo popular ao coração do Caiçara a partir das 21h30.  

O Dia do Padroeiro (Domingo, 29 de junho): Solenidade e Celebração

O dia 29, feriado municipal, é o ponto alto das homenagens. A programação religiosa é intensa, com missas às 8h, 10h e 15h para acolher os fiéis. O momento mais solene ocorre às 18h com a Missa Campal, celebrada ao ar livre na praça. A importância deste ato é sublinhada pela presença do Bispo da Diocese de Santos, Dom Tarcísio Scaramussa, que presidirá a cerimônia ao lado do pároco local, Padre Elmiran Ferreira Santos, reunindo as mais altas autoridades eclesiásticas da região com a comunidade. Após a missa, a festa continua com o aguardado show do cantor sertanejo Wagner Viana, às 21h, encerrando as comemorações.  

Um Palco para a Fé: A Estreia de "Tu és Pedro"

Uma das grandes novidades e um dos destaques culturais da festa de 2025 é a estreia do espetáculo musical inédito "Tu és Pedro", que será apresentado no domingo, às 19h30. A produção, concebida pelo Núcleo Artístico Palácio das Artes, um corpo estável da prefeitura, envolve um elenco de aproximadamente 30 pessoas e tem classificação indicativa de 12 anos.  

O enredo, com texto e direção de Isabel Samegima e Alan Queiroz, narra a trajetória do apóstolo a partir de sua própria perspectiva, durante o período em que esteve preso aguardando a crucificação. Em suas reflexões, Pedro revisita suas memórias com Jesus, sua missão e encontra a redenção pela traição cometida. O testemunho de fé do apóstolo é tão poderoso que, na narrativa, toca o coração dos soldados que o vigiam, levando-os ao cristianismo. O ator Oswaldo Soto, escalado para o papel principal, destaca a honra e a responsabilidade de interpretar uma figura que é um pilar não apenas religioso, mas também histórico, buscando compreender os sentimentos de sofrimento e redenção que marcaram seus últimos momentos. A peça representa um investimento significativo em uma produção cultural original e de alta qualidade, elevando o patamar das atrações da festa.  

V. A Alma do Mar: Reconectando-se com a Herança Pesqueira de Praia Grande

Embora a festa celebre o padroeiro dos pescadores, a natureza dessa comunidade em Praia Grande hoje é complexa e merece uma análise aprofundada. Dados do Programa de Monitoramento da Atividade Pesqueira do Instituto de Pesca de São Paulo oferecem um retrato quantitativo da pesca artesanal no município.

Um Retrato da Pesca Artesanal em Praia Grande (2018-2022)

Métrica

Dados

Unidades Produtivas Ativas

27

Pescadores Envolvidos

78

Pontos de Descarga Monitorados

8

Produção Média Anual

52,5 toneladas

Receita Média Anual Estimada

R$ 671,2 mil

Principais Espécies Capturadas

Pescada-foguete, corvina, guaivira, tainha, mistura

Principais Aparelhos de Pesca

Emalhe de fundo, emalhes diversos, emalhe de superfície

Fonte: Instituto de Pesca de São Paulo (PROPESQ)  

Esses números mostram uma atividade pesqueira presente e economicamente relevante, ainda que modesta em escala estadual, respondendo por 0,4% da produção total do estado no período. O estudo revela uma comunidade organizada em torno de 27 unidades produtivas e 78 pescadores, que utilizam principalmente redes de emalhe para a captura de espécies como a pescada-foguete e a corvina.  

A Frota Ausente: Uma Tradição Transformada

Ao comparar a Festa de São Pedro de Praia Grande com as celebrações de outras cidades litorâneas brasileiras, uma característica se destaca pela sua ausência: a procissão marítima. Em locais como Caraguatatuba, Vitória, Angra dos Reis e São Luís, o cortejo de barcos enfeitados que levam a imagem do santo ao mar é o ponto alto da festa, um ritual visualmente poderoso que reafirma a ligação visceral da comunidade com o oceano.  

A inexistência dessa tradição em Praia Grande não parece ser um lapso, mas sim uma adaptação cultural significativa. A análise das fontes sugere algumas razões para essa transformação. Primeiramente, as procissões marítimas em outras cidades são frequentemente organizadas em parceria com Colônias de Pescadores bem estabelecidas e atuantes. Embora Praia Grande tenha uma comunidade pesqueira ativa, não há menção de uma colônia com o mesmo protagonismo na organização dos festejos. Relatos mais antigos, de 2007, mencionam uma  

carreata (cortejo de carros) saindo de uma paróquia para outra, indicando uma preferência por celebrações em terra desde a oficialização do padroeiro.  

Além disso, a identidade de Praia Grande evoluiu. De uma vila de pescadores, transformou-se em uma das maiores estâncias balneárias do país, com uma economia fortemente voltada para o turismo e serviços. Uma festa terrestre, realizada em uma praça central de um bairro populoso como o Caiçara, é inerentemente mais inclusiva e acessível para a vasta população de moradores e turistas do que um evento focado no mar, que envolve primariamente a comunidade pesqueira. A festa, portanto, parece ter se adaptado para refletir a identidade urbana e turística da cidade moderna, mantendo a devoção a São Pedro como um elo simbólico com suas origens, mas alterando a forma do ritual para abraçar uma base comunitária mais ampla.

VI. O Tecido Cívico e Social: O Impacto do Festival para Além dos Muros da Igreja

A Festa de São Pedro transcende o âmbito religioso, tecendo-se na estrutura cívica e social de Praia Grande. A instituição do dia 29 de junho como feriado municipal é o principal vetor dessa influência. Ao garantir um dia de descanso para a maior parte da população, o feriado eleva a celebração a um evento de significado coletivo, um momento de pausa e reflexão sobre a identidade e as raízes da cidade, compartilhado por todos os cidadãos, independentemente de sua fé.  

O epicentro da festa, o Bairro Caiçara, vive uma transformação durante os dias de evento. A concentração de atividades na Praça São Pedro e em seu entorno gera um impacto direto na vida local. A logística necessária para a realização da festa exige a interdição de vias importantes, como a Rua São Benedito e a Rua Amin Andraus, o que altera a rotina de moradores e do comércio. Contudo, essa concentração também cria um polo de energia festiva que atrai pessoas de toda a cidade, dinamizando o bairro.  

Essa organização demonstra uma simbiose eficaz entre as instituições religiosas e o poder público municipal. A festa é um modelo de colaboração bem-sucedida: a Paróquia São Pedro Apóstolo e a Diocese de Santos fornecem o núcleo religioso, a legitimidade e o conteúdo litúrgico, como as missas e a presença do bispo. Em contrapartida, a Prefeitura de Praia Grande, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, oferece o suporte estrutural e logístico indispensável para um evento dessa magnitude. Isso inclui a montagem de palcos, tendas para a quermesse, iluminação, som e a organização de atrações culturais, como a peça teatral produzida pelo Núcleo Artístico municipal. Essa parceria beneficia ambos: a Igreja ganha uma plataforma de alta visibilidade e qualidade para sua principal festa local, enquanto a cidade enriquece seu calendário cultural com um evento tradicional, familiar e que fortalece a identidade comunitária e o orgulho cívico.  

VII. Conclusão: Uma Tradição Ancorada na Fé, com o Olhar no Horizonte

A Festa de São Pedro em Praia Grande revela-se muito mais do que uma simples celebração religiosa. É uma complexa tapeçaria tecida com fios de história, fé, identidade cívica e uma notável capacidade de evolução cultural. A análise de suas múltiplas facetas — desde a história de sua oficialização tardia até a programação detalhada de suas festividades e a ausência da tradicional procissão marítima — desenha o retrato de uma cidade que honra seu passado enquanto abraça seu presente.

A celebração demonstra uma natureza dinâmica e adaptativa. Ela preserva com sucesso seu núcleo histórico e simbólico — a reverência a São Pedro como o elo com as origens pesqueiras da cidade — ao mesmo tempo que inova, incorporando elementos culturais de alta qualidade, como a produção teatral "Tu és Pedro". Essa fusão entre o sagrado e o secular, o tradicional e o contemporâneo, é fortalecida por uma sólida parceria entre a Igreja e a administração municipal, que juntos criam um evento de grande apelo popular e significado comunitário.

Em última análise, a Festa de São Pedro encapsula o espírito da própria Praia Grande: uma cidade profundamente ligada às suas raízes à beira-mar, mas que nunca deixou de olhar para o futuro, crescendo e encontrando novas formas de expressar seu caráter único. A celebração funciona como uma âncora que a mantém firme em sua história e, ao mesmo tempo, como uma vela que impulsiona a comunidade em direção a novos horizontes.



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