domingo, 31 de agosto de 2025

A Dualidade da Cobertura: Ganhos, Riscos e a Redefinição do Jornalismo na Era da Hiperpolarização Política

Foto: Osvaldo Costa

Introdução: O Julgamento como Fenômeno Midiático

O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) transcende sua natureza estritamente jurídica para se estabelecer como um fenômeno de vasto alcance social, político e, de maneira proeminente, midiático. A controvérsia em torno da figura do ex-presidente e a gravidade das acusações imputadas a ele —que incluem crimes como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado— garantem uma atenção pública e uma cobertura da imprensa de proporções históricas. A questão de fundo para a indústria da comunicação é se a mídia, de fato, se beneficia de um evento dessa magnitude.  

Este relatório se propõe a analisar esta questão, explorando a complexa e paradoxal relação entre a imprensa e a cobertura de eventos políticos de alta tensão. A análise conclui que, embora a mídia obtenha ganhos substanciais e imediatos em termos de audiência, tráfego e receita, esses benefícios se manifestam a um custo significativo e de longo prazo. Tais custos se materializam na erosão da confiança pública, no aprofundamento da polarização social e em riscos éticos e reputacionais inerentes à espetacularização do jornalismo. O documento a seguir detalha essa dualidade, examinando a capitalização da atenção, as estratégias de monetização e a luta por narrativas, culminando na discussão dos custos e riscos que essa dinâmica impõe à imprensa.

1. A Capitalização da Atenção: Ganhos em Audiência e Engajamento

A cobertura de um evento com o peso histórico do julgamento de Jair Bolsonaro se traduz em um ganho imediato e mensurável para os veículos de comunicação, que capturam e concentram a atenção do público de maneira massiva e em diversas plataformas.

1.1. O Afluxo de Jornalistas e a Atenção Presencial: A Mídia como Espectáculo

A dimensão da demanda por cobertura presencial no STF ilustra a percepção da alta relevância do evento tanto para a indústria quanto para o público. O Supremo Tribunal Federal credenciou 501 profissionais de imprensa, representando veículos nacionais e internacionais, para acompanhar as sessões. Além disso, a demanda do público em geral foi igualmente expressiva, com mais de 3.357 pedidos de inscrição para um número limitado de 150 lugares disponíveis na sala de sessões. Em resposta a essa demanda, o STF precisou montar uma estrutura adicional, com telões e cadeiras, para acomodar a imprensa e a parte do público que não pôde ter acesso à sala de julgamento.  

O enorme contingente de profissionais de imprensa e o interesse popular em acompanhar as sessões presencialmente indicam que o julgamento foi percebido pelos veículos e pela sociedade como um evento de alta relevância. A alocação de recursos consideráveis por parte dos meios de comunicação para a cobertura in loco (equipes, logística) representa um investimento calculado para capturar uma atenção pública que se manifesta de forma rara e concentrada. Esse fenômeno transcende a simples notícia e se consolida como um "evento" que justifica o investimento e promete um alto retorno em audiência, comparável a grandes momentos cívicos como cerimônias de posse presidencial, que já demonstraram ser capazes de gerar picos de audiência significativos.  

1.2. Picos de Audiência na TV: A Consolidação da Atenção em Mídia Tradicional

Em um cenário de crescente fragmentação da audiência, a cobertura de eventos políticos de alta tensão, como o julgamento do ex-presidente, permite à mídia tradicional (televisão aberta e por assinatura) recapturar e concentrar um público que de outra forma estaria disperso. A audiência da TV aberta já havia demonstrado um aumento de 19% em momentos de forte cobertura política , e os eventos relacionados ao julgamento de Bolsonaro têm consolidado essa tendência. O  

Jornal Nacional, por exemplo, alcançou 25.2 pontos no Ibope em edições que trataram do caso, sua melhor média do ano, o que evidencia como a cobertura de noticiário "quente" impulsiona a audiência. A mesma dinâmica é observada em canais de notícias especializados, como a CNN Brasil, a GloboNews e a Jovem Pan News, que exploram a cobertura do caso de forma contínua.  

A mídia televisiva tem empregado uma adaptação estratégica para maximizar essa atenção, aplicando ao jornalismo o "clima de suspense" —um recurso narrativo frequentemente utilizado em novelas— para manter o público engajado. A consolidação de um público massivo em um único ponto de transmissão, impulsionada pela urgência e dramaticidade do evento, constitui um ganho inestimável para a mídia tradicional, que luta contra a dispersão do público para plataformas digitais.  

1.3. A Explosão no Ambiente Digital: A Dinâmica da Viralização e do Engajamento

O interesse pelo julgamento não se restringe aos canais tradicionais. Veículos de imprensa digital têm dedicado extensa cobertura ao caso, com a Agência Pública, por exemplo, criando uma seção especial para acompanhar o julgamento e seus desdobramentos , e a CNN Brasil produzindo múltiplas reportagens e análises aprofundadas sobre o processo.  

Mais revelador ainda é o papel de novos atores na arena midiática. O Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou que suas transmissões ao vivo do julgamento que tornou Bolsonaro réu alcançaram 24 milhões de impressões em plataformas digitais, com milhões de visualizações no Facebook, Instagram e YouTube. A cobertura, que contou com a participação de líderes partidários, como o presidente da sigla e o secretário nacional de Comunicação, ilustra a emergência de uma "mídia híbrida", na qual atores políticos se tornam produtores de conteúdo jornalístico e competem diretamente com veículos de imprensa tradicionais. O sucesso desses canais partidários em cobrir um evento de tal magnitude demonstra que a luta pela atenção e pela narrativa não é mais exclusividade da imprensa profissional. A mídia tradicional ganha audiência e tráfego, mas enfrenta a perda da exclusividade do acesso e da narrativa para plataformas que operam sob uma lógica e financiamento distintos.  

2. A Mídia como Negócio: Monetização e Estratégias Financeiras

A capitalização da atenção gerada pela cobertura do julgamento se converte em ganhos financeiros tangíveis para os veículos de comunicação, tanto nos modelos de negócio clássicos quanto nos mais contemporâneos.

2.1. O Modelo Clássico: Publicidade e Receita por Visualização

A alta audiência na televisão e o tráfego maciço em plataformas digitais se traduzem diretamente em ganhos financeiros para a mídia. O modelo de publicidade online, por exemplo, monetiza visualizações (CPM - Custo por Mil visualizações) e cliques (CPC - Custo por Clique) por meio de plataformas como o Google AdSense e outras redes de publicidade. A cobertura de um julgamento de alta relevância como este representa, portanto, um investimento de conteúdo de baixo risco e alto retorno. A demanda intrínseca do público por informações sobre o tema garante um alto tráfego e, consequentemente, receitas publicitárias significativas, sem a necessidade de um esforço massivo de promoção para criar a demanda.  

2.2. A Economia da Assinatura: O Julgamento como Conversor de Leitores

O modelo de assinaturas é um pilar do jornalismo digital moderno. Em um cenário de proliferação de notícias falsas e desinformação, onde 85% dos brasileiros já manifestaram receio de não saber se uma notícia é verdadeira ou falsa, o público busca fontes confiáveis para entender a complexidade de eventos como o julgamento. A cobertura complexa e aprofundada de um caso jurídico de grande repercussão se torna ideal para justificar o  

paywall e a oferta de conteúdo exclusivo e de qualidade, convertendo leitores ocasionais em assinantes recorrentes. A crise de confiança na imprensa, paradoxalmente, pode ser mitigada no nível da monetização, criando um público mais leal e menos suscetível à desinformação, disposto a pagar por um jornalismo sério.  

2.3. O Papel da Mídia Partidária: Análise do Fenômeno de Monetização e Engajamento

O sucesso de canais partidários em eventos como o julgamento não apenas compete pela audiência, mas também pelo modelo de negócio em si. A transmissão ao vivo do PT, que alcançou milhões de impressões , demonstra que entidades políticas estão construindo suas próprias plataformas para comunicação direta com o público. Esse fenômeno cria um ecossistema de atenção próprio, que pode ser financiado por doações, filiações ou, em última instância, pela influência política. Ao contornar o modelo comercial tradicional da imprensa, esses canais se posicionam como um novo e significativo concorrente na luta pela atenção e controle da narrativa.  

A seguir, a Tabela 1 resume os ganhos de atenção para a mídia em diferentes plataformas.

Tabela 1: Engajamento e Audiência do Julgamento de Bolsonaro (TV e Digital)

Plataforma de MídiaTipo de Audiência/EngajamentoDados QuantitativosFonte
Presencial (STF)Credenciamento de Jornalistas501 profissionais credenciados de veículos nacionais e internacionais
Pedidos de Público3.357 pedidos de inscrição para 150 lugares disponíveis
TV AbertaPicos de AudiênciaJornal Nacional alcançou 25.2 pontos no Ibope (melhor média do ano)
Digital (Mídia Partidária)Impressões em Transmissões ao Vivo24 milhões de impressões nos canais digitais do PT
Visualizações no YouTube220 mil visualizações na TVPT
Visualizações no Facebook14,1 milhões de visualizações
 

3. A Luta por Narrativas: Ganhos Reputacionais e Posicionamento Editorial

A cobertura de um evento como o julgamento de Bolsonaro não se limita a relatar fatos; é uma disputa pela construção de narrativas e pelo capital reputacional.

3.1. A Construção da Imagem: O Julgamento como "Lição de Democracia"

Veículos internacionais têm enquadrado o julgamento de Bolsonaro em uma tese editorial mais ampla, posicionando-o como um caso simbólico na luta global contra o populismo. A revista britânica The Economist, por exemplo, enquadrou o processo como uma "lição de maturidade" para os Estados Unidos, sugerindo que o Brasil "trocou de lugar" com os EUA em termos democráticos. De forma similar, o  

The New York Times saudou o julgamento como um "triunfo da democracia", embora tenha levantado preocupações sobre um possível "excesso" judicial.  

Essa cobertura internacional não se limita a noticiar o Brasil; ela eleva o caso a um patamar simbólico, ganhando capital reputacional como defensora de valores democráticos universais. O julgamento se torna uma ferramenta para a mídia projetar sua própria ideologia e autoridade no debate global sobre a fragilidade das democracias frente a movimentos populistas.

3.2. A Polarização como Ferramenta e Desafio

A política brasileira contemporânea é frequentemente definida como "polarizada" por acadêmicos e jornalistas, e a imprensa não atua como mera observadora desse fenômeno, mas como participante. A polarização impulsiona a atenção, pois o público tende a consumir notícias de veículos que reafirmam suas próprias visões de mundo, criando as chamadas "bolhas informativas". A cobertura do julgamento, por ser um evento altamente polarizador, se beneficia diretamente dessa dinâmica, gerando altos índices de audiência.  

No entanto, essa mesma polarização tem o efeito de minar a confiança na imprensa. A pesquisa do Instituto Reuters de 2019 indicou que 85% dos brasileiros têm receio sobre a veracidade das notícias. Ao se posicionar e reforçar narrativas que agradam a uma parcela do público, a mídia corre o risco de perder credibilidade como fonte imparcial para a outra parcela. É uma dinâmica em que o ganho de curto prazo em audiência alimenta uma perda de longo prazo na confiança, um ativo fundamental para a indústria.  

4. O Preço da Visibilidade: Custos e Riscos da Cobertura

Os ganhos de curto prazo em audiência e receita publicitária, embora substanciais, são acompanhados por riscos e custos que podem erodir a base do modelo de negócio da mídia: sua credibilidade.

4.1. O Desafio da Confiança: Dados da Crise de Credibilidade

A confiança no jornalismo brasileiro atingiu seu menor índice em uma década. Uma pesquisa do Instituto Reuters revelou que apenas 42% dos brasileiros com acesso à internet confiam na imprensa, uma queda de 20 pontos percentuais em relação a 2015. Outro levantamento do PoderData em 2022 apurou que apenas 21% da população considerava as notícias "muito confiáveis", enquanto 43% as consideravam "mais ou menos". A polarização política e a disseminação de notícias falsas são apontadas como causas principais dessa crise.  

O julgamento de Bolsonaro, por sua natureza inerentemente polarizadora, insere-se diretamente nesse ciclo. A intensa cobertura pode, paradoxalmente, agravar a crise de credibilidade, pois o público, já desconfiado, pode interpretar o posicionamento editorial como um viés político, independentemente do rigor da apuração. A busca por audiência pode, assim, prejudicar a percepção de imparcialidade e agravar a desconfiança pública.

4.2. Riscos Éticos e Jurídicos: A Presunção de Inocência e o Prejulgamento

A cobertura midiática de um caso judicial, especialmente um de grande repercussão, pode influenciar e até "condenar antecipadamente" réus, comprometendo a presunção de inocência e o direito à defesa, princípios fundamentais do sistema jurídico. A "espetacularização da mídia" frequentemente cria narrativas que simplificam a complexidade dos fatos, apresentando um "vilão claro e uma vítima inocente". Essa abordagem, embora atraia audiência, pode distorcer a percepção pública, gerar pressão sobre as autoridades e criar um ambiente hostil para os acusados.  

O ganho de audiência e receita obtido por meio da cobertura sensacionalista cria um profundo dilema ético para a imprensa. Ao se beneficiar da narrativa de "herói e vilão", a mídia pode inadvertidamente prejudicar o processo judicial e a reputação da própria justiça, transformando o que deveria ser um serviço público de informação em um risco para a integridade do sistema legal que ela cobre.  

4.3. Custos Reputacionais a Longo Prazo

Para a mídia, a reputação é o ativo mais valioso. A cobertura intensa de um evento como o julgamento de Bolsonaro oferece a chance de fortalecer essa reputação, mas a um alto risco. Qualquer percepção de viés, parcialidade ou sensacionalismo pode gerar um custo reputacional que anula os ganhos financeiros imediatos. A exposição intensa e o escrutínio em momentos de crise podem levar a "custos legais, processos judiciais e multas" e a uma perda de confiança duradoura. A decisão sobre como cobrir o evento é, portanto, uma aposta de alto risco.  

A Tabela 2 abaixo sintetiza os ganhos e riscos da cobertura para a mídia.

Tabela 2: Ganhos e Riscos da Cobertura do Julgamento de Bolsonaro para a Mídia

Ganhos (De Curto Prazo)Riscos (De Longo Prazo)

Audiência e Engajamento: Picos de Ibope em TV aberta ; Milhões de impressões e visualizações online.  

Erosão da Confiança Pública: Queda da credibilidade do jornalismo para 42% dos brasileiros.  

Receita: Aumento da monetização via publicidade (CPM, CPC) e assinaturas digitais.  

Aprofundamento da Polarização: A mídia atua como participante, não apenas observadora, no processo polarizador.  

Capital Reputacional: O julgamento é enquadrado como uma "lição de democracia" para o mundo.  

Riscos Éticos e Jurídicos: Prejulgamento midiático pode comprometer a presunção de inocência e a imparcialidade.  

Adaptação Estratégica: A imprensa se beneficia da alta demanda por notícias e da narrativa de suspense.  

Custos Reputacionais: A percepção de viés pode gerar desconfiança duradoura e custos legais.  

5. Conclusão: Um Balanço Complexo e as Perspectivas para o Futuro do Jornalismo

A análise detalhada deste relatório reafirma que a mídia, de fato, obtém ganhos substanciais com a cobertura do julgamento de Jair Bolsonaro. Esses ganhos são tangíveis e imediatos, manifestados em picos de audiência na TV, aumento de tráfego online e um potencial de conversão de leitores em assinantes. O evento, com sua natureza dramática e polarizadora, serve como um poderoso motor de atenção e, consequentemente, de receita.

Contudo, a conclusão mais crucial deste estudo é a de que esses ganhos imediatos vêm acompanhados de riscos substanciais e de longo prazo que corroem a base de seu modelo de negócio: a confiança. A cobertura de um evento tão politicamente carregado, em um ambiente já marcado pela desinformação e pela polarização, pode inadvertidamente agravar a crise de credibilidade que a imprensa já enfrenta. O julgamento ilustra o paradoxo do jornalismo na era digital: eventos polarizadores geram alta atenção e receita, mas a forma como são cobertos pode aprofundar a desconfiança e minar a função cívica da imprensa.

O julgamento de Bolsonaro é um ponto de inflexão que força a mídia a confrontar sua própria identidade. A forma como a indústria da comunicação irá navegar por esse dilema determinará seu futuro. Para mitigar os riscos e assegurar a sustentabilidade de sua função como instituição a serviço do interesse público, a imprensa deve:

  • Equilibrar a cobertura em tempo real com análises aprofundadas e contextuais, rompendo com a superficialidade sensacionalista.

  • Ser transparente sobre os desafios éticos e, quando necessário, sobre seu próprio posicionamento editorial, reconhecendo sua participação no debate.

  • Investir em jornalismo investigativo e de dados que ajude a desmantelar a desinformação e a quebrar as "bolhas informativas", oferecendo uma visão mais complexa e plural da realidade.

Em última análise, o julgamento do ex-presidente é um estudo de caso fundamental sobre a tensão entre o jornalismo como negócio e o jornalismo como serviço público. A forma como a indústria responder a essa questão determinará se ela se consolidará como uma fonte confiável de informação em um cenário hiperpolarizado ou se, ao capitalizar o drama político, apenas acelerará sua própria crise de confiança.




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