sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Viabilidade Técnica, Econômica, Ambiental e Regulatória do Uso de Água do Mar para Resfriamento de Data Centers em Praia Grande, SP

 

1. Resumo Executivo

O presente relatório avalia a viabilidade de utilizar a água do mar da Praia Grande, litoral sul de São Paulo, como uma solução de resfriamento para um data center. A análise abrange as dimensões técnica, econômica, ambiental e regulatória, buscando fornecer uma base sólida para a tomada de decisão. A conclusão central é que, embora a tecnologia de resfriamento por água do mar (SWC) seja tecnicamente viável e promissora, sua implementação no contexto específico da Praia Grande apresenta desafios complexos que exigem uma abordagem estratégica e de alto investimento. A viabilidade não é uma questão de "se," mas de "como" e "a que custo."

A principal oportunidade reside na eficiência energética e na sustentabilidade do SWC. Estudos de caso internacionais demonstram que essa tecnologia pode gerar uma economia de energia anual de até 79% e uma redução comparável nas emissões de carbono, como observado em uma análise para uma carga de 100 MW em uma região tropical. O acesso a uma fonte de resfriamento abundante, como o oceano, elimina a dependência de água potável, um recurso escasso em muitas áreas e cuja gestão está se tornando uma prioridade crítica para operadores de data centers.  

Contudo, os desafios são significativos e inerentes ao local. A temperatura da água na Praia Grande, que varia de 21 °C a 27 °C, é substancialmente mais alta do que a de projetos de referência em águas profundas, o que pode comprometer a eficiência do resfriamento natural e as economias projetadas. Além disso, o ecossistema local é sensível, com a região inserida na Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Centro (APAMLC), o que impõe um rigoroso e complexo processo de licenciamento ambiental. A corrosão, a bioincrustação e a formação de depósitos salinos demandam a adoção de um sistema de circuito fechado com tratamento de água robusto e oneroso.  

A recomendação estratégica é a adoção de um modelo terrestre de circuito fechado, similar ao do projeto Start Campus em Portugal, que minimiza os riscos de danos ao hardware e impactos ambientais. A elevada temperatura da água da superfície local pode justificar a necessidade de um sistema híbrido que combine SWC com resfriamento mecânico tradicional para garantir a eficiência durante os meses mais quentes. A viabilidade econômica e legal dependerá diretamente de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) detalhado e de um diálogo transparente e construtivo com os órgãos reguladores, como a CETESB e o DAEE.  

2. Introdução: O Imperativo do Resfriamento de Data Centers na Era da IA

2.1 O Crescimento Exponencial da Demanda por Dados e o Consumo de Energia

A paisagem tecnológica global está sendo redefinida pelo crescimento exponencial da computação em nuvem, da inteligência artificial (IA) e da Internet das Coisas (IoT). Essa proliferação de serviços digitais e o aumento da necessidade de armazenamento e processamento de dados resultaram em um crescimento proporcional da infraestrutura de data centers. Essas instalações são a espinha dorsal da economia digital, garantindo a operação contínua de plataformas de streaming, redes sociais e sistemas de computação de alto desempenho (HPC).  

No entanto, essa expansão traz consigo um desafio energético monumental. Os data centers são notórios por seu consumo de eletricidade, respondendo por cerca de 1% a 2% da demanda global de energia em 2020. O avanço da IA, em particular, impulsiona uma corrida pela construção de novos data centers, frequentemente limitada pela disponibilidade de energia e pela escassez de terrenos.  

2.2 O Desafio Térmico

O processamento de dados gera uma quantidade considerável de calor, um subproduto direto da atividade dos servidores. A gestão da temperatura e da umidade é crucial para proteger o hardware e otimizar seu desempenho. Se não forem adequadamente resfriados, os equipamentos podem superaquecer, perder eficiência ou até mesmo falhar completamente. A tarefa de manter a temperatura sob controle é tão exigente que a refrigeração consome uma parcela substancial da energia de um data center, chegando a até 43% do total em instalações convencionais nos EUA.  

A busca por métodos de resfriamento mais eficientes e sustentáveis tornou-se, portanto, um imperativo tanto econômico quanto ambiental. A dependência de grandes volumes de água potável para resfriamento é uma preocupação crescente, especialmente em regiões com estresse hídrico.  

2.3 A Proposta de Uso de Água do Mar como Solução

Neste contexto, a utilização de recursos hídricos alternativos, como a água do mar, surge como uma solução inovadora. A água do mar, atuando como um "dissipador de calor natural" , pode mitigar a necessidade de sistemas de refrigeração complexos, reduzindo o impacto ambiental e os custos operacionais. O presente relatório tem como objetivo principal investigar se essa solução teórica se aplica de forma viável ao local específico da Praia Grande, no litoral sul de São Paulo. Para isso, serão analisadas as principais tecnologias de resfriamento, as experiências globais com SWC, e os desafios específicos impostos pelo ambiente local, incluindo aspectos ambientais, legais e de custo.  

3. Panorama e Evolução das Tecnologias de Resfriamento de Data Centers

3.1 Métodos Convencionais

Tradicionalmente, os data centers dependem de sistemas de resfriamento mecânico que operam de forma similar à refrigeração de edifícios residenciais e comerciais. Esses sistemas utilizam Unidades de Ar Condicionado de Sala de Computadores (CRAC) ou Manipuladores de Ar de Sala de Computadores (CRAH) para fornecer ar frio e extrair o calor das salas de servidores. Esses equipamentos usam um fluido refrigerante, geralmente água, para remover o calor do ar e transferi-lo para condensadores, chillers ou torres de resfriamento externas. A confiabilidade e flexibilidade desses sistemas são altas, especialmente em ambientes com piso elevado, onde o ar frio é pressurizado sob o piso e liberado por meio de placas perfuradas. No entanto, a eficiência desses métodos é limitada, pois o ar é um meio ineficiente de transferência de calor.  

3.2 Tecnologias Emergentes de Alta Eficiência

A busca por maior eficiência impulsionou o desenvolvimento e a adoção de tecnologias alternativas, capazes de lidar com a crescente densidade de servidores e a alta geração de calor.

Free Cooling

O free cooling é uma alternativa que reduz ou elimina a necessidade do ciclo de refrigeração mecânica. Ele utiliza grandes manipuladores de ar para captar ar externo frio, circulá-lo nas instalações e expelir o ar quente. Em locais com climas frios, as centrais de chillers podem usar a água de condensadores e a água de chillers para trocar calor em um trocador de placas, evitando o ciclo de compressão e reduzindo significativamente o consumo de energia. Essa abordagem é altamente eficiente, mas sua viabilidade depende diretamente das condições climáticas locais.  

Resfriamento Líquido

O resfriamento líquido é intrinsecamente mais eficiente que o resfriamento a ar, pois os líquidos transferem calor de forma mais eficaz. Essa tecnologia é ideal para servidores de alta densidade e chips de alto desempenho (CPU/GPU) que geram muito calor. Existem dois tipos principais:  

  • Resfriamento por Imersão: Dispositivos elétricos inteiros são submersos em fluidos dielétricos (não condutores de eletricidade) dentro de um sistema fechado. O fluido absorve o calor e o transfere para um meio secundário, geralmente água, através de um trocador de calor. Um método mais avançado é a imersão bifásica, onde o calor faz o fluido ferver, transformando-o em vapor que é então resfriado e condensado por trocadores de calor com água.  

  • Resfriamento Direto ao Chip (Direct-to-Chip): Neste método, um fluido dielétrico não inflamável é levado diretamente aos componentes que geram mais calor, como os processadores. O fluido absorve o calor, se vaporiza e é levado para um condensador antes de retornar ao chip em estado líquido e frio. Estudos indicam que a transição do resfriamento a ar para placas frias (cold plates), uma forma de resfriamento direto, pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa e a demanda de energia em cerca de 15%, e o consumo de água em 30% a 50%.  

Resfriamento Evaporativo

O resfriamento evaporativo, seja direto ou indireto, utiliza a evaporação da água para resfriar o ar com baixo consumo de energia. O resfriamento evaporativo direto (DEC) utiliza um meio saturado com água para permitir que um grande volume de ar entre em contato com a água em evaporação. É um método de baixo custo, mas requer água potável e a tolerância a flutuações de temperatura e umidade internas. Por outro lado, o resfriamento evaporativo indireto (IDEC) é um sistema fechado que circula ar fresco sem a necessidade de água potável.  

A combinação dessas tecnologias, como em sistemas híbridos, e o uso de inteligência artificial para otimizar o resfriamento em tempo real, representam o futuro da gestão térmica em data centers.  

4. Resfriamento por Água do Mar (SWC): Modelos e Estudos de Caso Globais

O resfriamento por água do mar (SWC) aproveita a capacidade do oceano de atuar como um vasto dissipador de calor. Os projetos de SWC podem ser categorizados em dois modelos principais: o submerso e o terrestre com captação. A distinção técnica fundamental é entre o uso de um sistema de circuito aberto, onde a água do mar circula diretamente no sistema, e um sistema de circuito fechado, onde a água do mar resfria um circuito secundário de água doce através de um trocador de calor.  

4.1 Estudo de Caso 1: Microsoft Project Natick (Submerso)

O Project Natick da Microsoft é uma iniciativa pioneira que testou a viabilidade de data centers submersos. Em 2018, um protótipo com 864 servidores foi submergido na costa da Escócia. O conceito era aproveitar a água fria do oceano para resfriamento natural, eliminando a necessidade de sistemas de refrigeração complexos.  

Os resultados foram notáveis. Durante dois anos de operação, o data center submerso apresentou uma taxa de falhas oito vezes menor do que as instalações em terra, além de uma significativa economia de energia e redução nas emissões de carbono. A longevidade do hardware pode ser atribuída não apenas à temperatura fria, mas também à eliminação de variáveis ambientais críticas para equipamentos eletrônicos, como a presença de oxigênio, umidade e poeira. A ausência de intervenção humana também contribui para a durabilidade dos componentes. Este projeto demonstra um modelo que aborda não apenas a eficiência do resfriamento, mas também a confiabilidade e a vida útil do hardware. No entanto, o princípio da refrigeração natural, embora comprovado em um ambiente de água fria como o da Escócia, precisa ser reavaliado para águas mais quentes, como as da Praia Grande.  

4.2 Estudo de Caso 2: Start Campus, Sines, Portugal (Terrestre com Captação Marinha)

Mais relevante para a análise de um projeto na Praia Grande é o modelo terrestre com captação. O data center Start Campus em Sines, Portugal, é um exemplo em larga escala que utiliza essa abordagem. A instalação foi construída no local de uma antiga usina a carvão, o que permitiu o aproveitamento de parte da infraestrutura de captação e descarte de água, reduzindo os custos iniciais.  

O projeto Start Campus utiliza um sistema de circuito fechado, onde a água do mar não entra em contato direto com o hardware. O resfriamento é realizado através de trocadores de calor de titânio, um material resistente à corrosão. O governo português impôs uma restrição ambiental rigorosa, limitando o aumento de temperatura da água na saída para o oceano a um máximo de 3 °C. Este requisito regulatório é um fator determinante de custo e engenharia. Para cumprir o limite, o sistema deve ser projetado para ter uma grande vazão de água (250 litros por segundo na primeira fase, com planos para 25 m³ por segundo nas futuras expansões) ou um emissário mais longo, o que eleva o investimento inicial e os custos operacionais de bombeamento. O sistema também é adaptativo, ajustando automaticamente o fluxo de água de captação com base na temperatura sazonal do mar. Este modelo de Sines é um referencial valioso para a Praia Grande, pois enfrenta desafios similares de temperatura (embora Sines tenha águas mais frias) e legislação ambiental rigorosa.  

4.3 Estudo de Caso 3: Data Centers Flutuantes no Japão/Turquia

Uma parceria entre empresas japonesa e turca propõe a conversão de um navio em um data center flutuante, utilizando a água do mar para resfriamento. Esta solução visa contornar desafios como a escassez de terrenos e a complexidade burocrática de projetos em terra, prometendo um tempo de implementação 75% mais rápido. O projeto capitaliza a infraestrutura naval existente, o que ajuda a reduzir os custos de construção. Essa abordagem é uma resposta estratégica para mitigar o risco de licenciamento e a burocracia associada a empreendimentos costeiros fixos, mas introduz novos desafios operacionais e de conexão com a rede de dados e energia.  

5. Análise de Viabilidade Técnica e Operacional em Profundidade

5.1 Os Inimigos Ocultos: Corrosão, Bioincrustação e Depósitos

A utilização de água do mar como fluido de resfriamento introduz desafios técnicos significativos, que exigem soluções de engenharia e tratamento de água sofisticadas.

  • Corrosão: A água do mar é um ambiente extremamente corrosivo devido à sua natureza eletroquímica, potencializada pelo oxigênio dissolvido, cloretos e pH. Essa reação pode levar à degradação de materiais e vazamentos no sistema. A solução passa pelo uso de materiais resistentes, como o titânio, e a aplicação de inibidores de corrosão.  

  • Bioincrustação (Biofouling): A água do mar é um meio rico em microrganismos como bactérias, algas e outros organismos marinhos. O crescimento desses seres vivos pode formar biofilmes e depósitos que obstruem tubulações e reduzem drasticamente a eficiência da transferência de calor nos trocadores de calor. A bioincrustação também pode acelerar a corrosão sob depósito. O controle microbiológico é feito com biocidas oxidantes, como o hipoclorito de sódio, e desinfecção por luz UV.  

  • Formação de Depósitos (Scaling): A água de refrigeração, especialmente a que passa por processos de evaporação, tem sua concentração de sólidos dissolvidos (como cálcio, magnésio e sílica) aumentada, o que pode levar à incrustação e à formação de depósitos nas superfícies dos equipamentos de troca térmica. Isso não apenas reduz a eficiência operacional, mas também pode causar vazamentos e entupimentos. O caso da Microsoft em Quincy, Washington, é um exemplo claro de como a água rica em minerais danificou equipamentos, levando à criação de uma nova estação de tratamento de água para remover minerais e reutilizar a água.  

5.2 Soluções e Mitigações Técnicas

A viabilidade técnica de um projeto de SWC na Praia Grande depende da implementação de soluções robustas para mitigar os riscos inerentes à água do mar.

A adoção de um sistema de circuito fechado é uma necessidade de projeto, não uma opção. Essa abordagem, onde a água do mar apenas resfria um circuito interno, protege o hardware sensível do data center da exposição direta à água salgada e seus contaminantes. O uso de materiais de alta resistência, como o  

titânio para os trocadores de calor, é mandatório para combater a corrosão.  

Além disso, é indispensável um sistema de tratamento de água completo. A experiência de Quincy demonstra que a água, mesmo que não seja do mar, quando rica em minerais, exige um tratamento complexo para evitar danos aos equipamentos. O tratamento da água de captação e descarte com biocidas e outros produtos químicos é essencial para prevenir o  

biofouling e a corrosão.  

A análise desses fatores técnicos revela uma complexidade crucial: a água do mar não é um recurso de resfriamento "gratuito." O alto custo de capital para a infraestrutura especializada (tubulações, bombas, trocadores de calor de titânio) e os custos operacionais contínuos com tratamento químico e manutenção formam uma parcela significativa do projeto. O que pode parecer uma solução simples à primeira vista se traduz em uma complexa equação de engenharia e custo, onde o "verdadeiro custo" da água vai muito além do seu preço de aquisição.  

6. Análise de Fatores Ambientais e Locacionais: Praia Grande, SP

A Praia Grande não é apenas uma localização geográfica, mas um ecossistema com características físicas, ambientais e regulatórias únicas. A viabilidade de um data center SWC no local deve ser avaliada à luz dessas especificidades.

6.1 Características Físico-Químicas e Climáticas

A temperatura da água do mar em Praia Grande é um fator crítico. Os dados indicam uma variação de 21 °C a 27 °C. Em comparação, a água de águas profundas utilizada em projetos de referência é significativamente mais fria. A temperatura mais elevada da água na superfície da Praia Grande pode reduzir a eficiência do resfriamento natural e, consequentemente, a economia de energia esperada.  

Além disso, a salinidade, a presença de sólidos dissolvidos e a variação da maré são fatores relevantes. O teor de minerais, como o cálcio e o magnésio, exigirá um sistema de tratamento de água mais sofisticado para evitar a incrustação dos equipamentos.  

6.2 O Ecossistema e a Vulnerabilidade Local

A área costeira de Praia Grande está inserida na Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Centro (APAMLC), a segunda maior unidade de conservação marinha do Brasil e a maior do estado de São Paulo. Esta região é caracterizada por um ecossistema de "delicado equilíbrio" que interliga o ambiente terrestre e o marinho. A biodiversidade local é rica, com a presença de manguezais, costões rochosos, e uma variedade de espécies, incluindo espécies migratórias e em risco crítico de extinção. A região também é uma das mais importantes em termos de produção pesqueira no estado, com forte interação socioeconômica através da pesca artesanal.  

A introdução de uma infraestrutura de captação e descarte de água em uma área tão sensível levanta preocupações ambientais significativas, pois os impactos potenciais podem ir além da esfera técnica e afetar diretamente a economia local e o bem-estar das comunidades costeiras.

6.3 Impactos Ambientais Potenciais do Projeto

A construção e operação de um sistema de resfriamento com água do mar na Praia Grande pode gerar os seguintes impactos:

  • Poluição Térmica: O descarte da água, mesmo que em um limite de aumento de 3 °C como no projeto de Sines, pode alterar o ecossistema local. O aumento da temperatura pode impactar a fauna e a flora marinhas, especialmente a biodiversidade que está adaptada a um determinado regime de temperatura.  

  • Poluição Química: O descarte de resíduos do tratamento de água, como biocidas ou inibidores de corrosão, pode introduzir poluentes químicos no ecossistema, com consequências imprevisíveis para a vida marinha.  

  • Captura de Organismos: A captação de grandes volumes de água pode aspirar e matar organismos planctônicos, larvas de peixes e outros pequenos animais marinhos, afetando a cadeia alimentar local.  

  • Aterramento: A construção da infraestrutura de captação e descarte pode causar desmatamento de espécies remanescentes da Mata Atlântica e de manguezais, o que exigirá um plano de compensação ambiental.  

A sensibilidade ambiental da Praia Grande exige que qualquer projeto de grande porte seja avaliado sob uma lupa rigorosa, e o programa "Litoral Sustentável" do governo de São Paulo é um indicativo de que a gestão costeira é uma prioridade.  

7. Arcabouço Regulatório e Legal no Brasil e em São Paulo

A implementação de um data center com resfriamento por água do mar na Praia Grande exige a navegação por um complexo arcabouço regulatório em nível estadual e federal.

7.1 Licenciamento Ambiental e Outorga de Uso de Água

Para empreendimentos potencialmente poluidores ou de significativo impacto ambiental no estado de São Paulo, o processo de licenciamento ambiental é conduzido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB). A natureza e a escala de um projeto de data center com captação de água marinha em uma área de preservação ambiental exigirão, sem dúvida, um rigoroso  

Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o seu respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). O caso da construção de um centro de treinamento em Praia Grande demonstra que, mesmo um projeto menor, já necessita de licenciamento junto à CETESB e um plano de compensação ambiental.  

Adicionalmente, a captação e o uso da água, seja de rios, lagos, águas subterrâneas ou do mar, exigem uma outorga de uso concedida pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), órgão vinculado à Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). Para finalidades não públicas, a licença tem validade de 5 anos, exigindo renovação e monitoramento contínuo, incluindo medição de vazão.  

7.2 Normas de Descarte de Efluentes

As normas federais, como a Resolução CONAMA nº 357/2005, estabelecem os padrões para o lançamento de efluentes em corpos de água salinas. Essa resolução define condições e padrões para o descarte, incluindo limites para parâmetros como temperatura (máximo de 40 °C), pH (5 a 9), sólidos totais, e a ausência de óleos e espumas. O órgão ambiental competente, como a CETESB, pode impor condições e padrões mais restritivos com base em fundamentação técnica e nas condições locais.  

A existência da "Lei do Mar," que instituiu a Política Nacional para a Gestão Integrada e o Uso Sustentável do Sistema Costeiro-Marinho, e do programa "Litoral Sustentável" em São Paulo indica uma tendência de maior rigor regulatório para atividades na zona costeira. Um projeto de data center na Praia Grande será avaliado dentro dessa política mais ampla, o que pode prolongar o processo de licenciamento e exigir estudos e mitigações mais complexos.  

8. Análise de Viabilidade Econômica e Custo-Benefício

A análise de viabilidade econômica de um projeto SWC vai além da simples comparação de custos de energia. É uma equação complexa que pondera investimento inicial, custos operacionais de longo prazo e benefícios intangíveis.

8.1 Referência Analítica: O Estudo do IIT Bombay

A metodologia desenvolvida pelo Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) de Bombaim oferece um ponto de partida valioso para a análise econômica. O estudo, que avaliou a viabilidade de um sistema de Resfriamento de Água do Mar Profunda (DSWC) para um data center de 100 MW em uma região tropical, concluiu que o projeto poderia alcançar uma economia anual de energia de 79%, uma redução de 79% nas emissões de carbono e um período de retorno (payback) de apenas oito meses. Os principais custos de investimento identificados foram a tubulação, o isolamento e os trocadores de calor.  

8.2 Crítica e Adaptação do Modelo para Praia Grande

A aplicação direta do estudo do IIT para a Praia Grande, no entanto, é problemática. O modelo indiano assume "fácil acesso à água fria de oceano profundo". A Praia Grande, ao contrário, tem acesso a águas de superfície com temperaturas elevadas (até 27 °C), o que reduz a eficiência do resfriamento e, consequentemente, a economia de energia.  

O período de retorno de oito meses do estudo indiano é um "falso positivo" econômico para o contexto da Praia Grande. A necessidade de um sistema de circuito fechado e o uso de trocadores de calor de titânio, somados aos custos de um sistema de tratamento de água complexo, elevam substancialmente o investimento inicial. Além disso, os custos associados a um extenso e demorado processo de licenciamento ambiental (EIA/RIMA) prolongariam o payback, tornando o projeto financeiramente menos atraente.

Outro ponto crucial é o "verdadeiro custo" da água. A economia de água potável é um benefício, mas a análise de custo-benefício deve considerar o risco reputacional e de negócio de se competir por recursos hídricos com a população local. O caso da Microsoft em San Antonio, Texas, mostrou que o "custo real" da água era 11 vezes maior do que o preço pago, devido a esses fatores de risco. Para Praia Grande, a disputa por água potável pode ser um problema crítico a ser considerado, e a solução SWC, embora consuma menos água potável, deve ser avaliada de forma holística em relação ao seu impacto no ecossistema local.  

9. Análise de Riscos, Recomendações Estratégicas e Conclusão Final

9.1 Síntese dos Riscos

A análise detalhada deste relatório revela um conjunto de riscos multifacetados que precisam ser gerenciados.

  • Riscos Técnicos: A eficiência do resfriamento será reduzida devido às temperaturas elevadas da água da Praia Grande. A complexidade da infraestrutura SWC, a necessidade de materiais resistentes à corrosão e os desafios de bioincrustação são riscos técnicos que podem elevar os custos de capital e operação.

  • Riscos Ambientais: A poluição térmica e química do descarte de água, o potencial impacto na biodiversidade da APAMLC e a resistência de organizações ambientais e da população local representam riscos ambientais substanciais.

  • Riscos Legais e Burocráticos: O longo e complexo processo de licenciamento com a CETESB e a outorga com o DAEE podem atrasar o cronograma e o projeto pode ser negado ou ter condições onerosas impostas. A Lei do Mar e as políticas de desenvolvimento sustentável do litoral paulista indicam uma tendência a um rigor regulatório ainda maior.  

  • Riscos Econômicos: O alto investimento de capital inicial, o payback provavelmente mais longo do que o projetado em estudos de caso ideais, e os custos contínuos de operação e manutenção do tratamento de água e monitoramento ambiental são fatores que podem comprometer a viabilidade financeira.

9.2 Recomendações Estratégicas

Para mitigar esses riscos e maximizar as chances de sucesso do projeto, as seguintes recomendações são propostas:

  • Adotar um Sistema de Circuito Fechado: Dadas a salinidade e a presença de sólidos dissolvidos na água da Praia Grande, um sistema de circuito fechado é a única opção técnica e operacionalmente viável.

  • Priorizar o Estudo de Viabilidade Ambiental: A viabilidade legal e ambiental deve ser a primeira e mais importante fase do projeto. Um Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) robusto, transparente e abrangente, que aborde os impactos potenciais e as estratégias de mitigação, é a chave para o sucesso e para a construção de um relacionamento positivo com os órgãos reguladores e a comunidade.

  • Considerar a Complementaridade Híbrida: Diante da alta temperatura da água de superfície, o projeto pode precisar de um sistema híbrido que combine o resfriamento com a água do mar com o resfriamento mecânico tradicional, garantindo eficiência e confiabilidade durante os meses mais quentes.

  • Engajamento com Stakeholders: É fundamental estabelecer um diálogo proativo e construtivo com a população local, organizações ambientais e órgãos reguladores. A construção de consenso e a abordagem transparente dos impactos potenciais podem mitigar riscos reputacionais e legais.

9.3 Conclusão Final

Em resposta à pergunta central do usuário, o uso da água do mar de Praia Grande como solução de resfriamento para data centers é tecnicamente possível, mas não é uma solução simples. Exige um planejamento meticuloso, um investimento de capital inicial substancial, e um compromisso com a sustentabilidade e o diálogo social para mitigar os complexos riscos técnicos, ambientais e regulatórios. A viabilidade do projeto dependerá da capacidade do proponente de navegar por esses desafios, transformando a complexidade em uma vantagem estratégica de longo prazo em um mercado de alta demanda e crescente escrutínio ambiental.



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