1. Contexto Estratégico e Premissa da Não-Necessidade
O questionamento sobre a ausência de requisitos para a implantação do sistema de câmeras "Smart Sampa" na Estância Balneária de Praia Grande, Litoral Sul de São Paulo, exige uma análise profunda do panorama tecnológico e estratégico municipal. A premissa subjacente à questão é a de que Praia Grande (PG) possui uma lacuna tecnológica que deve ser preenchida pelo modelo da Capital. No entanto, a análise técnica demonstra que o fator crucial que impede a adoção do Smart Sampa é a inexistência de necessidade operacional e a falta de alinhamento político-jurisdicional, uma vez que PG já opera um ecossistema de videomonitoramento avançado, autônomo e focado em uma parceria estratégica de nível estadual.
1.1. O Dualismo dos Modelos de Segurança em SP
No estado de São Paulo, coexistem dois modelos proeminentes de inteligência de segurança baseada em videomonitoramento, cada um com foco e jurisdição distintos. O Smart Sampa, promovido pela Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP)
Em contrapartida, o Muralha Paulista é um programa de abrangência estadual, gerido pela Secretaria de Segurança Pública (SSP). Seu foco reside no compartilhamento de bancos de dados vitais (procurados e veículos roubados) entre municípios e forças policiais através de tecnologia de Reconhecimento Facial e OCR (Leitura Óptica de Caracteres).
1.2. O Posicionamento de Praia Grande (PG) como Smart City
A Estância Balneária de Praia Grande não se enquadra na categoria de município em busca de uma solução básica de videomonitoramento. Pelo contrário, PG é amplamente reconhecida como uma referência regional e estadual em tecnologia de segurança
Dada esta maturidade tecnológica e institucional, a adoção de outro sistema de governança municipal, como o Smart Sampa, representaria um retrocesso estratégico ou uma custosa duplicação de esforços. A decisão de PG de se aprofundar na integração com o Muralha Paulista
2. A Infraestrutura Consolidada de Praia Grande (O Fator "Já Existe e Funciona")
A análise da infraestrutura existente em Praia Grande demonstra que os requisitos funcionais exigidos por um sistema como o Smart Sampa já são atendidos e, em alguns aspectos, superados, eliminando qualquer lacuna técnica fundamental.
2.1. O Centro Integrado de Comando e Operações Especiais (CICOE)
O CICOE de Praia Grande é o núcleo da inteligência municipal. Sua maturidade operacional é inquestionável, pois foi criado em 2002
2.2. Densidade de Câmeras e Capacidade Analítica Avançada
O parque de câmeras de Praia Grande é um dos mais densos da região. Atualmente, o município conta com mais de 3.400 câmeras instaladas
O investimento em tecnologia de ponta é evidente:
Reconhecimento Facial (RF) e Muralha Paulista: O sistema já utiliza 106 câmeras com tecnologia de reconhecimento facial.
11 Estas são a base para a integração com o Muralha Paulista. Há planos ativos para uma expansão rápida, com o objetivo de dobrar o número de câmeras faciais ou chegar a 240 unidades vinculadas ao programa estadual.8 OCR (Leitura Óptica de Caracteres): O cerco eletrônico conta com 188 câmeras do tipo OCR, focadas na leitura de placas, identificação de veículos roubados ou clonados, e análise de movimentação de veículos para suspeitas (como transporte de carga roubada), formando um cinturão de monitoramento estratégico.
11 Capacidade de Alto Alcance: O município utiliza câmeras domo (com giro de 360 graus) que alcançam zoom de até 2 km, possibilitando rapidez nas ações da GCM e da Polícia.
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2.3. O Backbone Digital e Inovação
A espinha dorsal que suporta o videomonitoramento de alta definição é a rede municipal própria de fibra óptica, que possui 300 quilômetros de extensão.
A plataforma de software utilizada, o Digifort, provê tecnologia de vigilância urbana há mais de dez anos e oferece recursos avançados. Isso inclui módulos analíticos de vídeo, LPR, biometria, gestão de alarmes, e o conceito de acesso remoto, permitindo que diretores e secretários acessem o sistema à distância.
Além disso, Praia Grande demonstra inovação em resiliência, com a aquisição de lentes para câmeras termográficas (Pregão Eletrônico Nº 90052/2025, Item 60)
O custo de desenvolver interfaces ou migrar o software do CICOE (Digifort) para o padrão Smart Sampa seria de baixo retorno marginal, já que as funcionalidades centrais de inteligência (Reconhecimento Facial e OCR) já estão em pleno funcionamento e integradas ao Muralha Paulista. A introdução de um novo Sistema de Gerenciamento de Vídeo (VMS) geraria uma redundância de licenças, necessidade de novo treinamento operacional e risco de incompatibilidade de hardware recém-adquirido. O Smart Sampa, nesse cenário, representa um custo de capital (CAPEX) e operacional (OPEX) desnecessário para o município.
A Tabela a seguir ilustra o panorama da maturidade tecnológica de Praia Grande:
Panorama e Comparativo de Maturidade Tecnológica (PG Status Quo)
| Métrica de Smart City (Segurança) | CICOE Praia Grande (Status) | Implicação para a Não-Adoção do Smart Sampa |
| Central de Comando | CICOE, em operação desde 2002 (24/7), integrando GCM, PM, Trânsito | Maturidade institucional, dispensa nova infraestrutura central. |
| Cobertura de Fibra Óptica | 300 km de rede municipal própria | Conectividade de alto desempenho (Gigabyte) já instalada e convergente. |
| Câmeras com IA (Facial/OCR) | 106 Faciais / 188 OCR (meta de 5.400 total) | Funções inteligentes centrais já operacionais e em franca expansão. |
| Integração a Banco de Dados Estadual | Total integração ao Muralha Paulista (referência regional) | Prioridade estratégica no convênio estadual de segurança, concorrente direto do Smart Sampa. |
| Resiliência Energética | Câmeras Eólicas/Solares, kit gerador solar em licitação | Maior autonomia e menor vulnerabilidade a interrupções (característica de litoral). |
3. A Barreira Jurisdicional e o Alinhamento Político-Estratégico
A maior lacuna para a implementação do Smart Sampa em Praia Grande é de natureza política e jurisdicional, dada a priorização municipal por programas de abrangência estadual.
3.1. Prioridade no Muralha Paulista: O Conflito Inegociável
Praia Grande estabeleceu uma clara prioridade estratégica ao se tornar a única cidade da região com acesso ao banco de dados do programa estadual Muralha Paulista.
Essa concentração de investimento na verticalização da parceria com a SSP impede o desvio de recursos para a horizontalização de uma parceria com outro município (PMSP). O Muralha Paulista tem resultados diretos no combate ao crime itinerante, focando na captura de procurados
3.2. Natureza Jurídica e Autonomia Municipal
O Smart Sampa é, por definição, um programa institucional da Prefeitura Municipal de São Paulo.
A adoção do Smart Sampa acarretaria um risco de diluição da autoridade e um alto grau de dependência tecnológica da Capital. Praia Grande investiu para ser um modelo de autonomia.
4. Barreiras Regulatórias, Legais e de Governança (LGPD e Risco Jurídico)
Um dos elementos mais inibidores para a importação do modelo Smart Sampa é o passivo legal e o risco regulatório inerente ao uso de biometria facial em larga escala no Brasil.
4.1. O Precedente Legal do Smart Sampa na Capital
O programa de videomonitoramento de São Paulo, ou sistemas similares de reconhecimento facial na Capital, enfrentou sérios questionamentos jurídicos. Um juiz suspendeu a compra de câmeras de reconhecimento facial, ponderando que o sistema "ameaça gravemente o tratamento de dados pessoais".
Além disso, órgãos de controle, como o Tribunal de Contas do Município (TCM) de São Paulo, também emitiram relatórios preliminares com questionamentos significativos sobre a implementação do Smart Sampa.
4.2. A Conformidade LGPD e Governança em Praia Grande
Praia Grande tem demonstrado um engajamento proativo na conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A Câmara Municipal aborda ativamente a legislação
Para qualquer novo sistema que utilize dados biométricos em larga escala, o desenvolvimento de um Relatório de Impacto à Proteção de Dados (RIPD) é obrigatório, conforme diretrizes estabelecidas (existindo modelos de referência, como o da Polícia Federal).
A Tabela 2 resume a análise de risco regulatório:
Análise de Risco Regulatório: LGPD e Governança
| Aspecto de Risco | Smart Sampa (PMSP) | CICOE Praia Grande (Existente) | Barreira de Implementação em PG |
| Judicialização | Compra de câmeras com RF suspensa por juiz (alegação de violação da LGPD) | Não há registro de suspensão de uso ou compra | Risco de importar instabilidade regulatória da PMSP. |
| Transparência/Governança | Questionamentos do TCM-SP na implementação | CICOE utilizado como case study para Smart Cities | PG evita escrutínio duplicado de órgãos de controle. |
| Tratamento de Dados | Processamento e armazenamento em ampla escala sem consulta dos cidadãos | PG adere à LGPD via legislação municipal e treinamentos | Necessidade de novo RIPD específico, aumentando a burocracia e o risco. |
5. Conclusões Finais e o Conceito de Interoperabilidade
A análise exaustiva da infraestrutura, alinhamento estratégico e panorama regulatório de Praia Grande permite concluir que o que falta para a implantação do Smart Sampa não é tecnologia ou capital, mas sim a relevância do programa da capital no contexto de uma cidade litorânea tecnologicamente autônoma.
O sistema de segurança de Praia Grande, centrado no CICOE, integrado ao Muralha Paulista, e apoiado por uma rede de fibra óptica própria, já cumpre ou supera os requisitos de um sistema de inteligência urbana. Importar o Smart Sampa representaria uma duplicidade operacional, um custo proibitivo de migração ou interface, e a importação de um risco regulatório significativo.
5.1. Sumário das Lacunas para a Implantação do Smart Sampa em Praia Grande
| Categoria da Lacuna | Detalhamento Analítico |
| Lacuna Estratégica | Ausência de necessidade operacional: PG já possui CICOE (2002), 3.400+ câmeras e tecnologia superior (termográfica, eólica/solar), tornando a adoção redundante. |
| Lacuna Jurisdicional/Política | Priorização e investimento pesado na integração com o programa Estadual Muralha Paulista, que serve como o principal hub de inteligência policial. O Smart Sampa é um padrão municipal concorrente sem mandato estadual. |
| Lacuna Financeira e de Plataforma | Risco de duplicação de custos (CAPEX e OPEX) e complexidade de integração com o VMS proprietário (Digifort) de PG. A expansão de PG já está em andamento (licitações 2025). |
| Lacuna Regulatória | O Smart Sampa carrega o passivo legal de judicialização de reconhecimento facial na Capital, elevando o risco de compliance com a LGPD para PG. |
5.2. O Caminho Viável: Interoperabilidade em Vez de Substituição
A única forma economicamente e politicamente aceitável de o sistema da Capital ter alguma "implantação" em Praia Grande seria através da interoperabilidade de dados críticos, ou seja, a troca de metadados e alertas de inteligência. A PMSP precisaria fornecer um Gateway de API que permitisse ao CICOE de PG enviar e receber alertas específicos de interesse comum, sem exigir a migração de hardware, software ou mudança na governança de dados. Isso transformaria o relacionamento de implementação para cooperação, preservando a autonomia técnica de Praia Grande.
O caso de Praia Grande ilustra que, no Brasil, o conceito de Smart City em segurança está evoluindo de um modelo de replicação de plataforma para um modelo de Federação de Dados. Neste novo modelo, cada município mantém sua autonomia tecnológica (CICOE/Digifort) e compartilha inteligência via um hub estadual (Muralha Paulista). A lacuna real para a segurança pública intermunicipal não é a falta de tecnologia de ponta em PG, mas sim a ausência de um padrão obrigatório para a interoperabilidade de todas as plataformas municipais, incluindo o Smart Sampa.
5.3. Recomendações Estratégicas para o Futuro Digital de PG
O foco estratégico de Praia Grande deve permanecer na expansão e otimização do seu modelo existente, que já é referência:
Verticalização do Muralha Paulista: Concentrar os recursos e o foco político na finalização da expansão do reconhecimento facial (para 240+ câmeras) e aprofundar a integração contínua dos dados de segurança com todas as forças policiais estaduais e municipais, consolidando a função de central de inteligência da Baixada Santista.
8 Expansão Vertical da Tecnologia: Priorizar a implantação das tecnologias de nicho recentemente adquiridas, como as câmeras termográficas
17 , e a expansão do uso de câmeras eólicas/solares em áreas críticas, notadamente na fiscalização de áreas de preservação ambiental, onde a resiliência energética é vital.18 Reforço da Governança de Dados: Publicar e manter atualizado o Relatório de Impacto à Proteção de Dados Pessoais (RIPD) específico para o sistema CICOE/Muralha Paulista. Isso solidifica a defesa legal do município contra futuras contestações sobre o uso de dados biométricos em função de segurança pública.


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