domingo, 18 de janeiro de 2026

DO CONTEÚDO NEUTRO À URNA: OS LIMITES DO MARKETING DIGITAL PARA QUEM BUSCA O PODER


No cenário atual das redes sociais, onde o alcance orgânico (a entrega gratuita de posts) registra quedas constantes de cerca de 18% ao ano, o tráfego pago (Ads) tornou-se a ferramenta essencial para quem deseja visibilidade. Contudo, para vereadores e futuros candidatos, o uso dessas ferramentas exige uma estratégia jurídica impecável. O rastro financeiro deixado hoje será a prova de amanhã em processos de cassação por abuso de poder econômico.

1. A Estratégia do "Conteúdo Neutro" (O Pulo do Gato)

Muitos políticos utilizam conteúdos de entretenimento ou causas sociais (como pets ou hobbies) para inflar seus perfis através de impulsionamento pago antes do período eleitoral.

  • A Fase Civil: Enquanto o conteúdo for estritamente pessoal e não mencionar eleições, cargos ou projetos, o gasto é considerado marketing pessoal e não sofre as travas do TSE.

  • O Ativo Digital: No momento em que você converte um perfil de 1 milhão de seguidores para a política, ele torna-se um ativo digital de valor econômico.

  • Rastro de 7 anos: Se o custo para construir essa base não for compatível com sua renda ou não for declarado no registro de candidatura, o Ministério Público Eleitoral (MPE) pode enquadrar como Caixa Dois Digital, pois as plataformas guardam o histórico de quem pagou cada anúncio por 7 anos.1

2. Vereador em Mandato: Verba de Gabinete vs. Recursos Próprios

Para quem já ocupa uma cadeira, a fiscalização é dobrada durante os 4 anos de mandato.

  • Verba de Gabinete: Só pode ser usada para divulgação informativa do mandato (leis, fiscalizações). Usar dinheiro público para impulsionar fotos de gatos ou hobbies configura improbidade administrativa.

  • Dinheiro do Próprio Bolso (CPF): É permitido para conteúdos pessoais, mas o TSE utiliza o critério da modicidade. Gastos exorbitantes do CPF na pré-campanha para criar vantagem digital desproporcional levam à inelegibilidade.

3. A Armadilha dos "Apoiadores" e Patrocinadores

Muitos acreditam que um amigo ou fã pode pagar um anúncio para o político. Isso é proibido.

  • Impulsionamento por Terceiros: A lei só permite impulsionamento feito pelo próprio candidato ou partido.3 Se você, como apoiador, pagar Ads para um vereador, pode ser multado em até R$ 30.000,00.

  • Podcasts e Patrocínios: Se um político vai a um podcast financiado por empresas (PJ), o uso dessa estrutura para promoção eleitoral pode ser visto como doação de fonte vedada. No Brasil, empresas não podem doar para campanhas.

Matriz de Regras: O que pode e o que não pode

AçãoQuem pode pagar?Conteúdo permitidoRisco Jurídico
Post de MandatoVerba de GabineteAtos legislativos / InformativoImprobidade (se houver autoelogio)
Post de "Gatos"CPF do VereadorVida privada / HobbiesAbuso Econômico (se gasto for alto)
Post PolíticoCandidato ou PartidoQualidades / PropostasPropaganda Antecipada (se pedir voto)
Anúncio por FãNinguémQualquer umMulta de R$ 5k a R$ 30k

4. O rastro do dinheiro: Quem controla tudo?

A fiscalização não depende de denúncias manuais; o sistema é integrado e automatizado:

  1. Biblioteca de Anúncios (Meta/Google): Revela cada centavo gasto por CPF, público-alvo e duração do anúncio.6

  2. COAF e RIFs: Movimentações financeiras atípicas para agências de marketing geram Relatórios de Inteligência Financeira enviados ao MPE.

  3. Custo Digital Acumulado: O valor real de uma campanha é auditado pela soma de todos os impulsionamentos ($Ads$) realizados ao longo do mandato ($m$):



$$G_{acumulado} = \sum_{m=1}^{48} (Ads_{mensal} + C_{agencia})$$

Onde $C_{agencia}$ representa o custo fixo de gestão de tráfego.

Conclusão

Pagar para inflar o Instagram com conteúdos neutros é um caminho técnico viável, mas juridicamente perigoso para quem detém mandato. O rastro digital é a prova definitiva que o Ministério Público utiliza: se o investimento for desproporcional ou opaco, a Justiça Eleitoral tem poder para cassar o mandato mesmo após a posse, sob o entendimento de que o poder econômico "atropelou" a livre escolha do eleitor.3





Nenhum comentário:

Postar um comentário