O Contexto Geográfico e a Identidade Regional da Baixada Santista
A compreensão historiográfica do bairro Canto do Forte exige, primordialmente, uma análise da inserção estratégica de Praia Grande no complexo geográfico da Baixada Santista. Situada no ponto central desta região metropolitana, a cidade ocupa uma área territorial de 149,65 quilômetros quadrados, caracterizada por uma extensa planície costeira que se estende por 22,5 quilômetros de orla urbanizada.
O Canto do Forte, especificamente, ocupa uma posição privilegiada no extremo leste da cidade, onde a planície encontra o maciço da Fortaleza de Itaipu e o Parque Estadual Xixová-Japuí. Seus limites geográficos são bem definidos: ao leste, encontra-se o Bairro Militar; ao norte, o Parque Estadual Xixová; e ao oeste, o bairro do Boqueirão.
A transição dessa paisagem rural e isolada para o bairro nobre contemporâneo foi catalisada por um imperativo de defesa nacional na virada do século XX. O isolamento geográfico do Canto do Forte, que outrora dificultava o acesso, tornou-se sua maior virtude ao atrair investimentos militares de grande escala. A geomorfologia da região, com seus costões de pedra golpeados pelo mar e a densa Mata Atlântica, oferecia o cenário ideal para a instalação de baterias de artilharia capazes de monitorar a navegação na barra de Santos.
Arqueologia e Ocupação Primitiva: O Legado dos Sambaquis
Antes da colonização europeia e da subsequente estruturação urbana do século XX, o território de Praia Grande foi palco de ocupações humanas milenares. A pesquisa histórica e arqueológica identifica a presença dos Sambaquis — montanhas formadas por cascos de moluscos, ossos de mamíferos e instrumentos de pesca primitivos — como evidência crucial das populações que habitaram o litoral paulista no período pré-colonial.
No contexto do Canto do Forte e do Parque Estadual Xixová-Japuí, a integridade do solo e a proteção ambiental proporcionada pela área militar ajudaram a manter registros dessas civilizações. A transição para o período colonial viu a substituição dessas populações pelas sesmarias e sítios, estabelecendo a base para o sistema de capitanias que definiria a posse de terra na região até o final do século XIX.
A Gênese Militar: Fortaleza de Itaipu e o Início do Urbanismo
A história moderna do Canto do Forte está intrinsecamente ligada à construção da Fortaleza de Itaipu, iniciada em 1902. A motivação para a edificação deste complexo defensivo surgiu após a Revolta da Armada em 1893, quando o então presidente do Estado de São Paulo, Bernardino José de Campos Júnior, identificou a vulnerabilidade das defesas do Porto de Santos, então protegidas apenas pelas precárias Fortaleza de Santo Amaro e Forte Augusto.
A implantação da Fortaleza ocupou uma área de 2,4 milhões de metros quadrados, anteriormente composta pelos sítios Itaipu, Prainha e Itaquitanduva.
Cronologia da Construção e Composição da Fortaleza
O complexo militar não foi erguido de uma só vez, mas através de fases que refletiam a evolução tecnológica da artilharia e as necessidades geopolíticas do Brasil durante a primeira metade do século XX.
| Fase de Construção | Período | Principais Estruturas / Armamentos | Objetivo Estratégico |
| Infraestrutura Inicial | 1901 - 1903 | Estradas, pontes e viaduto de 20m de vão livre | Garantir o acesso terrestre e transporte de carga pesada |
| Núcleo Administrativo | 1904 - 1906 | Quartel, Paiol e Casa do Comandante | Estabelecer a guarnição permanente e o comando |
| Bateria General Gomes Carneiro | 1909 - 1910 | Seis canhões Krupp 150 mm L/50 | Defesa costeira de longo alcance sob o comando de Ximeno Villeroy |
| Forte Duque de Caxias | 1918 | Canhões Schneider-Canet 150 mm (alcance de 9km) | Proteção direta da entrada da Baía de Santos |
| Forte de Jurubatuba | 1919 | Canhões Schneider-Canet 150 mm | Reforço do cinturão defensivo contra ataques navais |
| Forte General Rego Barros | 2ª Guerra Mundial | Artilharia Antiaérea e baterias modernas | Defesa contra ameaças aéreas e monitoramento na guerra |
A Fortaleza de Itaipu serviu como o motor de desenvolvimento do bairro. A necessidade de abastecer a guarnição e manter as vias de acesso incentivou a ocupação civil nas adjacências da área militar. O Canto do Forte recebeu esse nome precisamente por ser o único ponto de acesso terrestre à Fortaleza, consolidando uma relação de simbiose entre o Exército e a comunidade civil que persiste até hoje.
O Canto do Forte como Bairro Planejado e de Elite
Diferente da maioria dos bairros de Praia Grande, que surgiram de forma orgânica ao longo da orla ou de rodovias, o Canto do Forte foi uma área deliberadamente projetada.
A Avenida Marechal Mallet, com seus seis quilômetros de extensão, evoluiu de uma via de serviço militar para um dos endereços mais valorizados do litoral paulista. O bairro manteve ao longo das décadas um padrão de vida elevado, caracterizando-se por uma densidade demográfica equilibrada em comparação com o vizinho Boqueirão.
Estrutura Administrativa e Divisões Internas
O Canto do Forte é subdividido em diversas praças administrativas, cada uma com sua própria identidade e perfil residencial, o que demonstra a complexidade de seu planejamento urbano original.
| Praça Administrativa | Características e Perfil |
| Costa Machado | Epicentro de luxo, com edifícios de alto padrão e arquitetura contemporânea |
| Santa Mathilde | Região histórica, onde se localiza a capela homônima e os primeiros lotes |
| Jardins | Área caracterizada por residências horizontais e vegetação densa |
| Parque Paris | Zona de transição com influência de modelos urbanísticos europeus |
| Oriental / Marechal Hermes | Áreas que refletem a expansão do bairro em direção ao centro |
Essa subdivisão administrativa permitiu que o bairro crescesse de forma ordenada, mantendo serviços públicos eficientes e uma infraestrutura que suporta tanto o turismo de elite quanto a moradia permanente. O desenvolvimento do Canto do Forte como um bairro planejado serviu de modelo para projetos posteriores na cidade, embora poucos tenham alcançado o mesmo nível de prestígio e integração ambiental.
O Papel Político e Militar na História Nacional
A Fortaleza de Itaipu e, por extensão, o bairro Canto do Forte, não foram apenas marcos geográficos, mas protagonistas em momentos decisivos da história política brasileira. A tropa estacionada na fortaleza participou ativamente de movimentos que alteraram o curso da nação, refletindo as tensões entre o poder civil e o militar ao longo do século XX.
A Revolução Constitucionalista de 1932
Durante a Revolução de 1932, a guarnição da Fortaleza de Itaipu aliou-se aos revolucionários paulistas na luta contra o governo de Getúlio Vargas.
A Ditadura Civil-Militar e a Repressão
Em 1964, a Fortaleza apoiou o golpe contra o presidente João Goulart, consolidando sua posição dentro da estrutura das Forças Armadas.
O caso mais emblemático ocorreu em 1968, após o Congresso da UNE em Ibiúna. Cerca de dez estudantes considerados líderes do movimento estudantil foram transferidos para a Fortaleza de Itaipu após passarem pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops/SP).
Figuras Ilustres e seu Impacto no Tecido Social
A história do Canto do Forte é pontuada por personalidades cujas trajetórias transcendem os limites do bairro, alcançando relevância nacional e internacional no esporte, na política e nas artes. Essas figuras não apenas residiram ou serviram no bairro, mas ajudaram a construir sua aura de prestígio.
Pelé: O "Soldado Nascimento"
Uma das passagens mais celebradas da história de Praia Grande é o fato de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, ter prestado serviço militar na Fortaleza de Itaipu em 1959.
Lideranças da Emancipação e Pioneiros Urbanos
O desenvolvimento do bairro também foi moldado por civis determinados. Heitor Sanchez Toschi destaca-se como uma das figuras centrais da década de 1950. Além de ser um dos líderes do movimento de emancipação política de Praia Grande, ele foi o principal entusiasta da urbanização do Canto do Forte, doando terrenos para a construção da primeira escola estadual e impulsionando a construção da Capela de Santa Mathilde.
Outros nomes fundamentais no movimento emancipacionista, que libertou Praia Grande da jurisdição de São Vicente em 1967, incluem Júlio Secco de Carvalho, líder inicial do movimento em 1953, e Nestor Ferreira da Rocha, representante ativo do Jardim Matilde e colaborador próximo de Sanchez.
Rodolfo Rondom: A Expressão Artística do Bairro
No campo das artes, o artista plástico Rodolfo Rondom é uma referência incontornável. Morador de Praia Grande há quatro décadas, sua obra reflete a luz e as cores do cotidiano litorâneo, com uma técnica que transita entre o figurativo e o cubismo.
Patrimônio Religioso e Arquitetura Sacra
A consolidação social do Canto do Forte passou obrigatoriamente pela criação de marcos religiosos que servissem como pontos de coesão para as famílias residentes. Esses templos não são apenas locais de culto, mas joias arquitetônicas que enriquecem o patrimônio cultural da Baixada Santista.
Capela de Santa Mathilde
Erguida em apenas seis meses graças ao esforço incansável de Heitor Sanchez, a Capela de Santa Mathilde teve sua primeira missa celebrada em 27 de agosto de 1950 pelo bispo diocesano D. Idílio José Soares.
Basílica de Santo Antônio e Capela Nossa Senhora da Guia
Outro marco arquitetônico de grande relevância é a Basílica de Santo Antônio. Em 2008, o Vaticano concedeu ao templo o título honorífico de Basílica, reconhecendo sua beleza artística e importância histórica para a comunidade católica.
Já a Capela Nossa Senhora da Guia, situada na Área de Lazer Ézio Dall'Acqua (Portinho), possui laços históricos profundos com a região. Construída originalmente por volta de 1894 e reformada em 1958, a capela está ligada a lendas de curas milagrosas de famílias pioneiras.
Evolução Urbana e Verticalização: O Século XXI
A paisagem do Canto do Forte passou por uma transformação radical nas últimas duas décadas. O perfil predominante de casas térreas e jardins amplos deu lugar a um processo acelerado de verticalização de alto padrão. Esse fenômeno foi impulsionado pela escassez de terrenos na orla e pela crescente demanda por segurança e lazer em condomínios fechados.
Infraestrutura e Serviços Modernos
O bairro beneficia-se da proximidade com o Litoral Plaza Shopping, o principal centro de compras da Baixada Santista sul, que abriga mais de 250 lojas e uma vasta gama de serviços públicos e privados, incluindo Poupatempo e unidades de saúde.
Dinâmica Imobiliária e Crescimento Populacional
Atualmente, Praia Grande apresenta um dos maiores índices de crescimento populacional do estado, atraindo cerca de 8 mil novos moradores anualmente.
| Indicador Demográfico e Econômico (Praia Grande) | Dados Estatísticos |
| População Total (Censo 2022) | 365.577 habitantes |
| Crescimento Populacional (2010-2022) | 36,5% (superior à média nacional de 6,5%) |
| Rendimento Médio Mensal | Aproximadamente R$ 3.100 (2,4 salários mínimos) |
| Investimento Municipal (Orçamento 2025) | Estimado em R$ 2,3 bilhões |
| Índice de Pavimentação de Vias | 98,76% das vias urbanas |
| IDH-M | 0,754 (Faixa de Alto Desenvolvimento) |
Esses números refletem a metamorfose vivida pela cidade, deixando para trás o rótulo de destino popular de baixo custo para se tornar o 4º destino turístico mais procurado do Brasil e um dos principais polos de investimento imobiliário do Estado de São Paulo.
O Patrimônio Natural: Parque Estadual Xixová-Japuí
A beleza cênica do Canto do Forte é inseparável da preservação ambiental promovida pelo Parque Estadual Xixová-Japuí. Com uma área de mais de 2,4 milhões de metros quadrados que envolve a Fortaleza de Itaipu, o parque protege o que resta da Mata Atlântica original da região.
O parque abriga uma fauna diversificada, incluindo tucanos, saruês, lagartos, esquilos e porcos-espinhos, que coexistem em proximidade com os edifícios de luxo.
Conclusão: A Síntese do Progresso com Memória
O bairro Canto do Forte representa, de maneira exemplar, a evolução de Praia Grande de uma extensão periférica de São Vicente para um dos polos de desenvolvimento mais sofisticados do litoral brasileiro. Sua história é tecida por fios militares, políticos, religiosos e civis, resultando em um tecido social robusto e consciente de sua trajetória. A Fortaleza de Itaipu continua sendo o símbolo máximo do bairro, equilibrando sua função militar com uma nova vocação turística e educativa que atrai milhares de visitantes anualmente.
A presença de figuras como Pelé e os líderes da emancipação serve de inspiração para as novas gerações de moradores, que agora desfrutam de um urbanismo planejado e de uma infraestrutura de ponta. Enquanto a cidade de Praia Grande se projeta para o futuro como uma "smart city", o Canto do Forte permanece como o guardião de sua identidade mais nobre. O desafio contínuo reside em equilibrar a verticalização intensa com a preservação do patrimônio histórico e ambiental, garantindo que o "Canto" que outrora era apenas um ponto estratégico de defesa continue a ser, para seus habitantes, um porto seguro de qualidade de vida e beleza natural. A trajetória de 1902 aos dias atuais demonstra que o progresso, quando acompanhado de planejamento e respeito à memória, é capaz de transformar sítios isolados em centros de excelência urbana reconhecidos nacionalmente.
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